As maravilhas de um processo de design simples

O processo de design não é um mito. Aliás, se existe característica que distingue na essência esta de outras disciplinas com uma relação íntima com a criatividade é a sua consciência pelo processo. Um processo baseado na assunção e perfeita assunção, que a identidade de problem-solver do design só se faz através de um processo estruturado e consciente.

Apesar disso, esta consciência e cuidado com a definição do processo pode conter uma dificuldade acrescida, especialmente quando falamos no design aplicado a desafios digitais. Na definição de um processo de trabalho estruturado, pode não ser interessante, assumir uma inventariação rigorosa e detalhada de todas as etapas e tarefas. A definição de um processo de design, pode sim, assumir-se como a espinha dorsal na abordagem aos mais variados tipos de desafios, mas que mediante os casos também está sujeito a imprevisibilidades e até a alguma improvisação.

Quando falamos de desafios de design, quase todos são diferentes entre si. Todos têm as suas especificidades, as pessoas a quem se dirigem (dizer que tudo é para todas as pessoas é sempre uma armadilha), orçamentos, calendários e desta forma as abordagens mais indicadas.

Processo de design simples e versátil

Então, mas se todos os desafios são diferentes e alguma versatilidade no processo de design pode ser vantajoso, como se pode definir afinal um processo que sirva de referência? Processos de design demasiado detalhados nas etapas e ferramentas, tendem a ter dificuldade na adaptação a desafios diferentes. Como muitas coisas na vida (e no design), é no equilíbrio entre a padronização de etapas e a versatilidade na utilização de várias ferramentas de trabalho, que se podem encontrar as principais mais-valias da aplicação de um processo de design simples. O processo de design só é verdadeiramente útil à equipa que o aplica se for uma referência efetiva e não só mais um lindo artigo partilhado online (eventualmente como este).

A ponderação entre o número de etapas a incluir no processo e as sugestões de ferramentas aplicar em cada um desses momentos do projeto, são um dos equilíbrios mais importantes a fazer. Acrescendo ainda ao facto que o processo não é algo assético a quem o aplica. O talento de cada designer, pode e deve ter também espaço na definição do próprio processo e nas ferramentas que este utiliza.

Premissas de definição do processo

Definir um processo de design tem tudo que ver com contexto e prática.

Contexto, porque para que o processo seja realmente útil às equipas não pode ser tão abstrato que não reconheça o seu campo de aplicação. Por exemplo, pensar, desenhar e desenvolver um produto digital é bastante diferente que remodelar a experiência de trabalho de um escritório. Embora numa disciplina multidisciplinar como o design, existam sempre áreas de charneira que se influenciam constantemente, cada um destes desafios envolve muitas variáveis diferentes e o processo de design por detrás da sua resolução, deve ter isso em conta.

Prática, porque um processo de design é isso mesmo, um processo a aplicar através do aprender-fazendo na resolução concreta de desafios. Um processo que se transforma e adapta conforme a experiência acumulada das equipas e dos seus profissionais.

Processo de design para experiências digitais

Importa nesta fase, talvez tentar tangibilizar a concepção do que pode ser um processo de design relativamente simples. Para isso e neste caso, é necessário definir o contexto de aplicação deste processo no pensamento, desenho e desenvolvimento de experiências digitais. Baseado numa lógica de human-centred design também conhecida como user-centred design, esta proposta processual resume com algum equilíbrio no número de etapas, aquilo que pode ser a proposta um determinado caminho, mas sem definir exaustivamente todas as tarefas ou ferramentas subsequentes.

Assumindo essencialmente uma metodologia com quatro etapas diferentes, o human-centred design, resume de forma bastante pragmática alguns pilares essenciais de um processo de design, neste caso aplicado à construção de experiências digitais.

Ilustração das quatro etapas do processo de human-centred design

Observação

Tomando a observação do dia a dia e em contexto das pessoas para as quais se destina a experiência, a proposta procura alavancar todo o processo seguinte na informação recolhida nesta fase. A verdadeira inspiração de qualquer projeto deve estar consubstanciada num conhecimento profundo das necessidades e anseios das pessoas para quem se destina. Através de um exercício de imersão completo, é possível partir à descoberta nesta fase das pessoas, dos seus sonhos, anseios, conhecimentos e necessidades.

Ideação

Partindo de toda a informação recolhida anteriormente sobre as pessoas e o seu contexto, esta é a etapa de extrapolar limites. É a etapa de fazer perguntas, mesmo as mais incómodas (principalmente estas). É o momento de esquecer (pelo menos para já) o orçamento ou calendário apertado e imaginar como poderia ser a experiência ideal. Também não interessa ter os “Velhos do Restelo” à mesa porque para eles o convencional é a única coisa que conhecem e poderiam viver com isso o resto das suas vidas. Não existem ideias boas ou más e todas contam até se chegar ao momento de as hierarquizar, priorizar e avaliar para as etapas seguintes.

Prototipagem

Explorados os limites das ideias e depois de escolhidas as melhores para avançar é importante tangibilizar essas concepções em modelos concretos. A prototipagem é uma boa etapa para se perceber quais as ideias que poderão ter ou não futuro. É fundamental saber o nível de detalhe que se quer aplicar em cada protótipo e equilibrar isso com o número de ideias a prototipar. Conforme se vai aumentando o nível de detalhe em cada protótipo pode ser interessante ir excluindo ideias pelo caminho.

Teste

Por fim, mas não menos importante, é tempo de colocar à prova as ideias através dos protótipos e com as pessoas para as quais se destinam tentar perceber as suas mais-valias e desafios. Esta não é a etapa para perceber quem tem ou não razão. É sim o momento, em que com toda a humildade possível, tentámos perceber se a solução de experiência digital que imaginámos resolve ou não o problema que esteve na sua origem. Preferencialmente, testar várias protótipos e soluções ajuda a decidir com mais pontos de comparação entre o leque de opções.

Ilustração das etapas do processo de design e o pensamento divergente e convergente

Abordagem iterativa

Uma das características mais interessantes desta abordagem é a sua visão cíclica. A proposta feita entre as etapas de observação, ideação, prototipagem e teste, não se esgota no percurso linear (ou talvez não) entre todos estes momentos. A proposta de processo, concentra-se também na preocupação de no final do percurso se poder recomeçar tudo (ou quase tudo) de novo. Todas as soluções podem ser sempre melhoradas. Nada é um produto acabado. Tudo pode ser iterativamente evoluído. Este é um dos conceitos mais fortes e preponderantes do human-centred design.

Contudo, existe também um outro conceito importante para a correta interpretação desta proposta de processo de design. A ideia de um exercício permanente de pensamento divergente e convergente. Em cada uma das etapas deste processo é fundamental não só ser criativo na criação de hipóteses, mas também pragmático na sua avaliação e escolha interligando isso com a etapa seguinte.

A somar a tudo isto, propositadamente neste resumo nunca se fala das ferramentas que poderão ser utilizadas em cada uma das etapas. As ferramentas de design são hoje ao mesmo tempo uma benção e uma maldição. Benção porque muitas delas tornaram-se altamente reconhecidas nos processos de design digital e isso ajuda a criar uma linguagem comum. Uma maldição porque muitas vezes são aplicadas por si só, sem um conhecimento concreto dos seus objetivos e mais-valias. Não são as ferramentas que fazem o processo de design, mas sim os propósitos que queremos atingir com a sua aplicação.

O processo é também ele um processo

Por mais esquemáticas, simples e organizadas que possam parecer estas apresentações de processos de design, é fundamental ter bem presente que são meros pontos de partida. A aplicação e desenvolvimento de um processo de design que faça sentido para cada equipa e profissional é em si também um processo. Um processo feito com base na investigação, pensamento, avaliação mas essencialmente na prática. Um processo fruto dos desafios concretos que são colocados às equipas e profissionais em cada projeto, sejam eles de que disciplina do design forem.

Fotografia © Andrew Ridley