As novas (ou talvez não) tecnologias do dia-a-dia

Refletir sobre o impacto das tecnologias na vida quotidiana, seja em que área de atividade for, é por si só, uma tarefa bastante complexa. E ao contrário do que se possa pensar, esta dificuldade não está só na capacidade de acompanhar, ou não, o aparecimento de novas tecnologias. Prende-se essencialmente, com a premissa de ser muito difícil perceber a mudança, quando na realidade somos parte intrínseca dessa mudança.

Por outro lado, a tecnologia, ou pelo menos aquilo que hoje assumimos como tal, tem mudado em muito as interações humanas. Isto é um facto inegável. Quer se goste ou não das mudanças, é muito fácil reconhecer, que a revolução digital, tem tido um impacto imenso no nosso dia-a-dia. Seja na forma como nos relacionamos, trabalhamos ou mesmo nos divertimos, a tecnologia, transformou por completo muitas, se não quase todas, as atividades humanas.

A ideia de novas tecnologias

Mas, quando falamos de todas estas transformações, é fácil encontrarmos muitas incertezas, desafios e em alguns casos mesmo, medos. A novidade tem quase sempre estes dois lados, a novidade e o receio. Contudo, existe também uma ideia que persiste e que poderá nesta altura fazer já pouco sentido. Muitas vezes ouvimos a expressão de “novas tecnologias”. Quase sempre quando esta expressão é utilizada, estamos a referir a algo como computadores, smartphones, internet ou uma série de outras “novas” ferramentas. 

Acontece que nada disto é “novo”. Podemos discutir a abrangência da palavra, mas por “novo” poderemos interpretar quase sempre algo recente, algo que não existia até algum algum tempo atrás e que agora faz parte do nosso quotidiano. Vivemos tempos de aceleração. Tempos em que as transformações acontecem de forma extremamente rápida e que distorcem também a concepção daquilo a que chamamos de novo.

O novo e a sua velocidade

A velocidade e a evolução do homem nessa conquista, é igualmente muito útil para demonstrar a forma como a percepção daquilo que é ou não “novo”, tem vindo a mudar drasticamente ao longo da história. Se olharmos com cuidado para a história da tecnologia, vemos que um dos momentos em que este andou mais rápido, foi aquando da invenção da biga, por muitos conhecida simplesmente por quadriga (embora seja coisas diferentes). Uma tecnologia inventada milénios antes do nascimento de Cristo, que consistia num aparelho produzido em madeira, composto por um eixo, duas rodas e que podia ser puxado por dois ou mais cavalos. Nesta época, numa pista de areia com tempo favorável seria possível atingir as maiores velocidades que até então o homem se tinha deslocado na terra na história da humanidade.

A história da velocidade só veria um dos seus capítulos mais gloriosos anos mais tarde no início do século XX (1908) aquando da invenção do modelo T por Henry Ford. Aliás, Ford até tem uma frase bem conhecida, onde de alguma forma brinca com o senso comum da época e que dizia: “Se eu tivesse perguntado às pessoas o que elas queriam, ter-me-iam dito cavalos mais rápidos.”

O mais incrível de toda esta história é que desde o momento em que é inventada a biga e o modelo T de Henry Ford, passam milhares de anos. Mas, desde o momento da invenção do modelo T, até ao dia histórico de 1969 em que Neil Armstrong pisa pela primeira vez a lua, passam tão só 60 anos.

É incrível perceber nesta história relativamente simples, a velocidade a que foram acontecendo as evoluções tecnológicas e o impacto que tudo isso teve no desenvolvimento de uma série de tecnologias. Quer sejam tecnologias relacionadas com a velocidade ou mais recentemente a revolução digital, a que assistimos no nosso tempo, é inegavelmente verdade que a concepção daquilo a que chamamos de novo, mudou bastante nas últimas décadas.

Muito poucas certezas

Vivemos tempos, tecnologicamente desafiantes. Isto é evidente. Por outro lado, é hoje inegável que as transformações tecnológicas, acontecem no nosso dia-a-dia a um ritmo acelerado. Quem ainda se lembra das disquetes que tinham uma capacidade de armazenamento de pouquíssimos megas? Não foi assim há tanto tempo quanto isso.

Por muito que gostássemos de ter certezas dos capítulos seguintes da história da evolução tecnológica, é quase impossível saber o que se segue. Teremos que conseguir viver com um contexto de muito poucas certezas, mas onde os valores ganham ainda maior importância. É fundamental, independentemente das técnicas que possam surgir, manter o foco no essencial, as pessoas. São elas que dão sentido às tecnologias. São elas que com a sua criatividade e emoção, tornam qualquer tecnologia em algo extraordinário.

Os números da revolução digital

A tecnologia, em especial a tecnologia digital, veio para ficar. Depois da revolução industrial, assistimos hoje igualmente a uma revolução digital, que já faz parte dos nossos dias, numa escala até aqui impossível de alcançar. Ainda existem dúvidas disto? Basta olhar com atenção para alguns destes números.

  • Desde o ano de 2014 que no nosso planeta passaram a existir mais dispositivos móveis do que pessoas.
  • 52,9% era a percentagem no ano de 2018 da população mundial que tinha acesso regular à world wide web.
  • Em 2018 estimava-se que existiam online cerca de 1.3 biliões de websites publicados online, contendo o mais variado leque de conteúdos e serviços.
  • Nos primeiros quatro meses do ano de 2020 estimava-se que o Facebook tinha ativos cerca de 2.6 biliões de utilizadores em todo o mundo.
  • Em 2017, estimava-se que em Portugal existissem cerca de 6.8 milhões de utilizadores de dispositivos móveis (smartphones).
  • No ano de 2018, cerca de 75% da população portuguesa utilizou a internet em algumas das suas tarefas do dia-a-dia.
  • Em 2018, 100% dos jovens portugueses com idades entre os 16 e 24 anos utilizou a internet para algum tipo de atividade.
  • Da percentagem da população Portuguesa (75%) que utilizou a internet em 2018, 52% recorre a serviços de net banco.

O impacto da utilização de muitas das tecnologias a que temos por hábito chamar de “novas” é esmagador. Por conseguinte, quer olhemos numa escala local ou global, é fácil depreender que muitas destas tecnologias estão presentes hoje de forma muito profunda na nossa vida quotidiana. Não querendo isto dizer que seja algo bom ou mau. É simplesmente o engenho humano na procura de novas soluções. Seja como for, é fundamental não esquecer o essencial.

Por muito fascinante que a tecnologia digital possa ser, o fundamental continuarão a ser sempre as pessoas que lhe dão sentido, que lhe dão igualmente propósito. Embora as ferramentas possam ir evoluindo, serão no final do dia, para o bem o para o mal, aquilo que fizermos delas.

Fontes

Os números referidos no artigo, têm por base dados recolhidos nas seguintes fontes: Statita Online, Pordata, Marketest, The Consumer Intelligence Lab, Think with Google, Eurostat, Instituto Nacional de Estatística e “Web Design – the evolution of the digital world 1990-today” de Rob Ford e Ed. Julius Wiedemann editado pela Taschen.

Fotografia © Sergi Kabrera