Descomplicar a linguagem até parece fácil com o Pandemia Clara

A pandemia de Covid-19 trouxe, como todos sabemos e experienciamos todos os dias, desafios imensos. Desafios não só relacionados com a saúde pública, mas também com a economia, passando pelos modelos de relação e comunicação do Estado com os Cidadãos.

Nunca foi tão importante, manter os Cidadãos informados, não com devaneios de redes sociais, mas com informação relevante, atualizada, simples e fácil de compreender. A necessidade de comunicar e comunicar de forma clara, nunca esteve tão na ordem do dia.

Pandemia Clara

Conscientes dos desafios de comunicação por detrás de toda esta pandemia e acreditando que a informação do Estado para os Cidadãos, poderia ser mais simples e directa, o Luís Carmona, o Nelson Duarte e a Eva Dinis, lançaram em novembro de 2020 o Pandemia Clara. Uma plataforma bastante fácil de utilizar, mas com uma experiência de consulta de informação sobre medidas, plano de vacinação, onde realizar testes ou até mesmo dados, bastante simples e que descomplica toda a linguagem normalmente utilizada.

Para ajudar a compreender um pouco melhor não só as ideias por detrás do projeto, mas também o processo de trabalho, o Luís Carmona o designer do projeto, partilhou com o DXD, num tom muito descontraído, algumas das preocupações iniciais mas também os fatores de sucesso do Pandemia Clara. No final do dia, este também se trata de um serviço público, feito por voluntários a pensar nas pessoas, mas que aceitam de bom grado quem quiser pagar um café virtual (pois claro) e com as devidas distâncias de segurança.

Fotografia de Luís Carmona
© Luís Carmona

À conversa com o Luís Carmona

DXD: O user experience em particular, tal e qual como o design em geral, é por definição uma disciplina que se concentra na resolução de problemas. Que problema é que identificaram que existia e que vos levou a criar o Pandemia Clara?

Luís Carmona: Quando estava a tentar perceber o que ia mudar no dia 24 de novembro, percebi que o Governo ia complicar as regras para cada concelho (e bem, na minha opinião), conforme o nível de gravidade da situação, de maneira a haver uma maior justiça nas medidas: concelhos pouco fustigados pela pandemia não teriam de ter medidas tão restritivas à sua economia local. Comunicar isto é complicado, porque é legislação complexa, feita um bocadinho em cima do joelho, sem a atenção que cada tema merece. E lembro-me de ter até lido um artigo (não sei onde) que criticava a má comunicação do governo em relação à pandemia e ficar com isso em mente.

DXD: A informação disponível sobre o Covid, é como sabemos imensa e assume hoje os mais variados e criativos formatos de comunicação. Tiveram alguma fonte de inspiração para criar o Pandemia Clara?

L.C.: No meio da investigação para o problema (que já tinha ideia que seria o problema de muitos) encontrei um site que me parecia óptimo, o Por concelho, que mostrava as medidas, como o nome diz, por concelho. No entanto alguns concelhos tinham medidas que só se aplicavam em alguns dias (os tais fins-de-semana prolongados de dezembro) e eu pensei que isso não ajudava no meio de tantas medidas. Aí surgiu a ideia: e se para além do concelho tivesse também um calendário para ver as medidas apenas daquele dia?

DXD: Relativamente ao processo, quais foram as etapas que seguiram? Especialmente no trabalho de design, que métodos e ferramentas foram utilizando ao longo do processo?

L.C.: Depois de validar com a minha namorada (Eva Dinis) se lhe parecia uma ideia interessante o cruzamento de concelhos e calendário, piquei no WhatsApp o meu parceiro de all-things-internet, o developer Nelson Duarte, ao que ele respondeu “manda layout” como quem diz “sim, boa ideia, mostra lá como é que imaginas a coisa”. E assim foi: fiz um rabisco em papel (para ecrãs grandes, aí talvez um erro meu ainda de mindset), tirei foto e mandei no WhatsApp. Ele achou bem e disse para arrancar com o markup, porque me conhece há muitos anos e sabe que eu começo logo no browser a trabalhar. Isto foi na 6ª feira à noite, dia 21 de novembro, e no dia seguinte ele pegou no projecto.

Ilustração de desenhos de estudos para a plataforma
Estudos iniciais © Pandemia Clara

DXD: Um dos méritos valiosos do Pandemia Clara é explicar por palavras simples do dia a dia aquilo que está confinado muitas vezes em decretos-lei extensos e com uma linguagem demasiado técnica. Quando é que perceberam que a simplificação da linguagem seria fundamental para o projeto e uma das suas grandes mais-valias?

L.C.: Inicialmente o que fizemos foi pegar nas regras que estavam no site do “Estamos On” e reunir em vários níveis de importância, porque em determinados dias há regras que se destacam mais que outras. Esse trabalho de reunir as coisas todas, analisar textos e decretos, acabou por ser feito pela Eva, porque presta muito mais atenção aos detalhes de escrita do que eu e o Nelson. E lançámos assim, o mais depressa possível, até porque dia 24 estava ali à porta e era importante lançar. Só durante a semana seguinte, após sugestão no LinkedIn do João Craveiro (que nenhum de nós conhecia), nos surgiu a vontade de tornar a linguagem menos institucional. Porque apesar de muita gente perceber essa linguagem, fica mesmo muito mais fácil compreender as coisas quando são escritas em tom de conversa de café e sem ligar muito aos detalhes que só interessam a uma minoria e que podem ler nos decretos.

DXD: Um projeto deste género, lançado num tempo em contra-relógio, só seria possível com uma excelente ligação entre o design e o desenvolvimento. Como foi sendo feita a ponte entre o trabalho de design e development?

L.C.: Sem dúvida. Acho que a química de trabalho entre duas pessoas vale mais do que qualquer metodologia e sei de experiência própria que só quando essa química não acontece é que é fundamental haver metodologias e processos entre pessoas, os tais agile e scrums, etc. E porque eu e o Nelson trabalhamos juntos há 5 anos, aproveitámos essa dinâmica e experiência para por as coisas na rua, com a maior qualidade possível e no menor espaço de tempo. Temos sempre esta atitude do “bora lá então!”. Pessoalmente gosto mais de trabalhar lado a lado num escritório (ou achava que sim, no início da pandemia) mas os novos tempos fizeram com que passemos imenso tempo os dois no Google Meet, numa sessão que está ligada várias horas por dia, como se fosse o nosso mini-open-space. Em relação à parte mais técnica, ele já sabe que eu mexo no HTML e SCSS e ele mexe em tudo o que seja código: neste caso sabíamos que para despachar tinha de ser estritamente JS e “bases de dados” em JSON. E era mesmo para fazer MVP, não havia tempo para pensar noutras funcionalidades! Nem valia a pena, sem saber do feedback das pessoas, inicialmente muito positivo no Twitter e no Reddit.

DXD: Todo o projecto partiu da vossa iniciativa pessoal, o que é incrível. Não existiu uma encomenda, nem se quer um briefing de um cliente a que era necessário responder. O projeto avançou, corrijam-me se estiver enganado, sem nenhum tipo de apoio. Como foi gerir todo este trabalho “fora de horas” ao mesmo tempo com outros projetos profissionais e pessoais?

L.C.: Tanto eu como o Nelson gostamos de, no nosso tempo pessoal, pensar em projectos que tenham um âmbito social (e não só), que possam ajudar quem precisa, e já estávamos há uns meses há procura de fazer algum tipo de voluntariado cívico digital. Claro que nestas situações só existe o tempo “fora de horas” para fazer este trabalho e portanto a ideia do Pandemia Clara alinhou-se com a nossa vontade pré-existente. Acho que somos parecidos com muita gente que trabalha no digital: temos sempre um bichinho atrás da orelha a dizer “boa ideia seria se…”, temos muitas ideias que acabam por não fazer sentido passado 2 ou 3 horas. A Pandemia Clara terá sido uma das poucas que tivemos a sorte de poder concretizar e que ajudou algumas pessoas até agora. E ficamos muito felizes por isso, claro.

DXD: O impacto da Pandemia Clara e o sucesso da iniciativa está à vista de todos. Qual tem sido a reação dos utilizadores aos projeto? Que tipo de mensagens têm recebido?

L.C.: A resposta ao projecto tem sido incrível e explodiu nas redes nos dias 7 e 8 de dezembro, dias em que tivemos acima de 100k users diários. Foi engraçado ver o link do projecto chegar a grupos de WhatsApp onde não tínhamos sido nós a partilhar, foi aí que percebemos que a coisa tinha escalado. Um dos elogios mais repetidos será o de “serviço público como deve ser”, algo que a mim me dá um gosto particular porque já há alguns anos que tenho imensa vontade de trabalhar em sistemas de informação de serviço público, em particular na área da saúde pública, porque acho que num futuro onde a saúde (e os seguros de saúde) serão guiados por big data e profiling, apenas o SNS será capaz de responder a todos nós sem olhar a custos. Claro que já tivemos um ou dois emails de chalupas negacionistas mas que em nada afecta a restante mais de uma centena de emails de sugestões de correcções e de parabéns. Também recebemos algumas dezenas de dúvidas de casos ultra específicos aos quais nem nós sabemos responder.

DXD: Infelizmente a pandemia e todos os seus desafios é um cenário que nos acompanhará por mais alguns meses. Quais são os planos do Pandemia Clara para o futuro? Como gostavam que o projeto evoluísse?

L.C.: Honestamente, por mais gosto que tenhamos em ser úteis, por mais que gostemos da atenção que as pessoas andam a dar ao nosso trabalho, queremos que o projecto acabe o mais depressa possível e voltar e pensar em outras ideias que ajudem as pessoas no seu dia-a-dia, tal como esta. Mas isso não nos impediu de criar mais funcionalidades ao longo do tempo e de estarmos continuamente a pensar “já que as pessoas aqui vêm, que tal darmos mais informações sobre o mesmo tema”. E aí surgiu o simulador de vacinas, idealizado e implementado no dia a seguir ao anúncio do plano de vacinação, de listarmos os pontos onde se podem fazer testes, por concelho e aqueles dados que nos acompanham todos os dias (fazemos aqui o apelo à DGS e aos SPMS para digitalizar em APIs os dados). Estamos a pensar implementar notificações mas achamos que pode ser meio overkill. Acho que às vezes implementamos algumas coisas (como implementámos o modo PWA) só para aprender coisas novas, não que tenham grande interesse para audiência geral.

Fotografia © Pandemia Clara