Escrever sobre design: o primeiro ano de DXD

Escrever sobre design, principalmente sobre uma disciplina como o user experience (UX), é um exercício bastante desafiante. Aliás, é uma tarefa que poderia facilmente ser caracterizada por muitos adjetivos, mas para mim, ao longo destes primeiros 12 meses de DXD, tem-se resumido essencialmente a um exercício de complexidade, abstração e humildade.

Muito em jeito de celebração, mas principalmente de reflexão, como sempre tem sido o propósito do DXD, ao olhar para o percurso do projeto neste último ano, não é difícil daí tirar alguns pensamentos. Conclusões, umas mais sólidas que outras, é certo, mas todas elas aprendizagens muito valiosas, não só para o DXD enquanto projeto, mas sobretudo para mim enquanto designer.

Contradição enquanto linha editorial

Uma das características mais interessantes do DXD é a sua liberdade para a contradição. A palavra em si tem por norma uma aura bastante pesada. Quase ninguém gosta de se contradizer. Uma contradição pode muitas vezes ser também encarada como uma mudança de opinião. A questão que para o DXD norteia muitas vezes esta reflexão é precisamente esta: qual é o problema de mudar a perspetiva sobre determinado tema?

Se essa linha de pensamento for sustentada numa investigação constante, na evolução das aprendizagens pela prática ou na escuta sincera de outros pontos de vista, esta contradição só pode querer dizer amadurecimento de pensamento. Não raras vezes se encontram contradições entre diferentes artigos do DXD. Escritos em momentos temporais diferentes, mais do que uma comparação linear, é importante olhá-los em contexto e sequência, pois são entre si um caminho evolutivo de pensamento.

O caminho de que os artigos do DXD são testemunho, resulta essencialmente de uma constatação. Pensar primeiro e escrever depois, sobre a disciplina do design em geral e a user experience (UX) em particular, é um exercício fundamentalmente de complexidade, abstração e humildade.

Ilustração de um carrinho de linhas alusiva ao conceito de complexidade
Adaptado © Absurd Design

Complexidade

Escrever sobre design é antes de tudo um desafio complexo. Complexo, não só pela densidade de ideias que se pode querer transmitir numa linha de pensamento lógico e simples de compreender, mas principalmente porque é um exercício de escolha. Escolha de como abordar determinado tema, de qual o grau de profundidade ou até mesmo do que fica de fora em cada um dos textos.

A simplicidade da linha de raciocínio que se constrói é determinante para a ligação que se possa, ou não, criar com quem lê cada artigo. Por tanto, no final do dia, conforme também as limitações de tempo que se tenha disponível para cada peça, escolher não só o que incluir, mas o que excluir, é algo muito preponderante.

Ilustração de várias lâmpadas alusiva ao conceito de abstração
Adaptado © Absurd Design

Abstração

No outro lado do espectro, escrever sobre design, acaba também por ser um exercício bastante abstracto. O design em toda a sua amplitude disciplinar, mas também o user experience (UX) na sua missão particular, são em si ferramentas para a construção de soluções para problemas concretos. Esta sua objetividade, pode muitas vezes iludir ou confundir o propósito do design, simplesmente nas “coisas” que cria.

A verdade é, pelo menos aquela em que acredito, que o design é sim, a disciplina do processo. O design não está tão só nas soluções que cria para cada problema das pessoas, mas sim principalmente no processo consciente de lá chegar. Por muitas ferramentas que se possam utilizar durante todo este processo, ele é sim algo abstracto. Escrever sobre tudo aquilo que está por detrás de uma solução, neste caso uma experiência digital, muitas vezes muito antes de existir qualquer coisa materializada, é sem sombra de dúvidas algo difícil de tangibilizar.

Quando procuramos responder mais vezes a questões como o “porquê?” ao invés do “como?”, o terreno de trabalho torna-se menos concreto. Um desafio ao pensamento amplo sobre uma disciplina que se assume muitas vezes como concreta. As soluções serão sempre concretas, é certo, mas o caminho até lá chegar, por muito que se possam utilizar fórmulas, será sempre abstracto. Por isso é que o exercício de escrever sobre design é tão rico.

Ilustração de uma mão a oferecer livros alusiva ao conceito de humildade
Adaptado © Absurd Design

Humildade

Por fim, algures entre a complexidade das escolhas e a abstração do processo, a humildade tem sido outras das características fundamentais do caminho evolutivo do DXD. Partilhar algo, neste caso um conteúdo, pressupõe sempre, ou pelo menos deveria, estar disposto a ouvir. Disposto a ouvir críticas construtivas e menos construtivas, opiniões de outros colegas, mas principalmente, reconhecer, quando for caso disso, que se estava errado. Partilhar é uma boa forma de descobrir o quão errado se está sobre muitas coisas.

Na sua generosidade, muitos dos leitores do DXD têm sentido o à vontade, e ainda bem, para partilharem as suas ideias, numa série de espaços. Isto demonstra não só a atualidade dos temas, mas a riqueza do diálogo. E não raras vezes, essas discussões, no bom sentido da palavra, levaram a muitas conclusões novas.

O DXD não existe porque acredita que tudo o que escreve está certo. Muito pelo contrário. Existe para que possa ser, com toda a humildade, uma plataforma de partilha e conversa circular entre profissionais que acreditam que o design, onde se inclui a user experience (UX), independentemente de serem designers ou não, pode ser um contributo valioso para o sucesso dos produtos e serviços.

Mais-valias de escrever sobre design

Ao fim de 60 artigos, contrariando até algumas das ideias e ambições iniciais, é relativamente simples identificar as mais-valias do exercício de escrever sobre design e user experience (UX). Sendo acima de tudo uma aprendizagem muito pessoal, construir linhas de pensamento simples e lógicas sobre determinados temas, ajuda em muito a prática do projeto de design.

Não podendo assumir este conjunto de mais-valias como o resultado de uma fórmula perfeita, elas resumem sim, algum do valor acrescentado que o exercício da escrita pode acrescentar ao valor dos profissionais.

1. Escrever ajuda a organizar ideias

Um texto, para o bem e para o mal, é em última análise uma linha narrativa sequencial. Seja num artigo de jornal ou numa conversa de chat, é fácil perceber o princípio, meio e fim do tema em causa. Escrever tem antes de mais este mérito. Obriga a organizar não só da forma mais simples possível as ideias a transmitir, mas principalmente a decidir a sequência de cada uma destas ideias.

A obrigatoriedade da decisão tem a mais-valia de nos fazer pensar como queremos contar cada “história”, mas também de ajudar a arrumar ideias e a relacionar, ou não, conceitos que andam um pouco perdidos.

2. Escrever ajuda a partilhar

Uma das características mais fantásticas mas também desafiantes da escrita e publicação online é o descontrolo absoluto das partilhas. Depois de publicado algo online, é impossível saber quem porventura irá ler ou pensar sobre cada tema. Este descontrolo tem também a vantagem de permitir que qualquer pessoa possa partilhar uma peça de conteúdo, extrapolando em muito o ciclo de pessoas a que se poderia chegar.

Funcionando quase como uma bola de neve, a dada altura deixa-se de perceber quem partilhou o quê e como quem lê cada artigo encontrou esse conteúdo. A vantagem disto não está necessariamente no aumento da audiência, mas na discussão que isso gera. Não raras vezes, o DXD recebe mensagens de pessoas que seria impossível encontrar sem este “descontrolo online”. Isso não só torna muito mais rico o exercício da escrita, mas a troca de ideias com pessoas dos cantos mais inesperados do mundo.

3. Escrever ajuda a decidir

O exercício da escrita, para além de ser um processo de organização de ideias, pode também ser um ótimo contributo para o processo de tomada de decisão em contexto de projeto. Escrever obriga a pensar sobre cada um dos temas. Escrever sobre design vai fazer com que naturalmente se pense sobre muitos dos temas relacionados com a prática do projeto de design.

Fazer este trabalho de reflexão sobre os mais variados tópicos, antes que, por exemplo, eles aconteçam em contexto real de um projeto, dá a qualquer designer uma vantagem grande no processo de decisão. Como em qualquer projeto, o tempo é sempre um bem escasso mas que não retira às equipas a responsabilidade de tomar boas decisões. Amadurecer ideias sobre muitas das problemáticas do design, antes mesmo que estas se tornem em desafios nos projetos, dá a qualquer designer uma vantagem bastante grande em todo o processo.

4. Escrever ajuda a prática

Escrever sobre design pode igualmente ser um contributo importante para uma coisa fundamental em design, a prática. Felizmente ou infelizmente, o design é uma disciplina iminentemente prática. Contudo, essa prática só faz sentido se for alavancada num pensamento crítico estruturado.

O exercício da escrita é também um contributo para a prática. Prática, não de muitas das atividades que ocupam o dia a dia das equipas de design, mas sim da prática do desenvolvimento de pensamento crítico e abstracto sobre determinados temas.

5. Nem tudo pode ser explicado por imagens

A criação de imagens é uma das muitas ferramentas à disposição do design, independentemente da sua disciplina prática. Elas permitem, para além de ilustrar ideias complexas, criar relações emocionais e funcionais com determinados temas. Contudo, podem não ser sempre o suporte indicado para transmitir determinado tipo de ideias, especialmente as mais complexas.

A escrita ajuda muito a expandir a caixa de ferramentas que temos à disposição em cada momento. Ter a capacidade de conseguir não só desconstruir temas complexos por imagens, mas adicionar-lhe uma maior profundidade através de um texto, pode em muitos momentos, ser um valor acrescentado, face à “história” que tenhamos que contar.

No que toca à disciplina de user experience (UX), esta mais-valia tem ainda ganhos maiores. Afinal de contas, quanto do trabalho do UX Designer, não é feito também através das mensagens e conteúdos que são disponibilizados em cada momento da experiência aos utilizadores?

Ilustração de uma ampulheta alusiva ao conceito de visão para o futuro do DXD
Adaptado © Absurd Design

Números DXD

Os números valem o que valem, mas ainda assim ajudam muitas vezes a criar algum retrato da realidade. No caso do DXD, não sendo nem de perto nem de longe uma obsessão, através de alguns números é possível perceber um pouco melhor algum do trabalho que tem sido desenvolvido na produção de novos conteúdos.

Aqui fica um apanhado relativamente simples das principais áreas de conteúdos e alguns dos números que resumem o caminho percorrido até ao momento. Os indicadores aqui apresentados, resumem os primeiros 12 meses de funcionamento do DXD.

  • Total de artigos publicados (219)
  • Artigos temáticos (60)
  • Artigos no dicionário (159)
  • Ferramentas no dicionário (98)
  • Projetos paralelos (6)
  • Mitos do dia a dia (40)
  • Dossiês temáticos (5)
  • Guias práticos (1)
  • Webinars (3)
  • Formações online (1)

O que vem a seguir?

É difícil responder a esta questão. Verdadeiramente. Se existe algo que caracteriza o DXD é a sua falta de planeamento. Não por desleixo, mas simplesmente porque a riqueza do projeto enquanto exercício de reflexão está na sua capacidade de se ir ajustando conforme as ideias e necessidades que surgem.

Independente do que possam ser os caminhos a seguir, uma coisa é certa. O DXD continuará a ser um espaço de reflexão aberto, partilhado e participado, que procura acima de tudo descobrir a razão do “porquê?” mais do que simplesmente responder à necessidade imediata do “como?”, embora não esqueça nunca que a prática exímia contribuiu para a construção de soluções relevantes para os problemas do dia a dia das pessoas que o design tenta resolver.

Fotografia © Christian Holzinger