Mitos do dia-a-dia

Todos os mitos são boas oportunidades para fazer as perguntas certas

São muitos os mitos com os quais se depara quem todos os dias tem a responsabilidade de desenhar novos produtos digitais. Na verdade, muitas vezes, são estes mesmos mitos, que estão na base de inúmeras das decisões importantes para os projetos em momentos cruciais.

Se pensarmos na transversalidade de áreas de competência que são necessárias para desenhar um produto digital, é fácil perceber a complexidade da tarefa. Assim, é necessário muitas vezes, num mesmo projeto, independentemente das metodologias utilizadas, conseguir coordenar e articular diferentes perfis de profissionais e por consequência áreas de competência muito distintas, cada qual com as suas especificidades. Por conseguinte, quanto mais áreas de competência envolvidas, maior é o número de mitos associados, que no final do dia se traduzem em processos de decisão complexos e sem a objetividade que deveriam.

É fundamental em qualquer projeto, especialmente nos relacionados com produtos digitais, ter consciência que os mitos existem, saber identifica-los, questionando sempre tudo o que é assumido como um dado adquirido.

O significado da palavra

A discussão em torno da ideia de mitos, pode muito bem começar pela própria definição da palavra em si. Com mais ou menos variações, se consultarmos um qualquer dicionário, a caracterização que iremos encontrar, será algo muito próxima desta retirada do Priberam dicionário online:

Mi·to (latim mythos, -i, fábula, do grego mûthos, -ou, palavra, discurso, coisa dita, conto, história, narrativa, ficção)

Personagem, facto ou particularidade que, não tendo sido real, simboliza não obstante uma generalidade que se deve admitir. Coisa ou pessoa que não existe, mas que se supõe real. Coisa só possível por hipótese; quimera.

Ao olharmos para muitas das definições possíveis da palavra “mito”, é interessante perceber a dualidade do seu sentido. Por um lado representa inequivocamente algo que não é verdade, por outro, não deixa de ganhar importância porque efetivamente é algo em que alguém acredita, muitas vezes, com bastante convicção.

É curioso perceber esta simbiose de significados no sentido que um mito não deixa de ser simplesmente uma crença, muitas vezes representada pelo senso comum, em algo que realmente não é verdade.

Mitos há muitos

Cada um de nós, ao longo da sua história, sempre se habitou a ouvir falar de mitos. Muitas vezes, mitos associados a histórias místicas ou lendárias. Sobre personagens do quotidiano ou figuras dos livros de história. Apesar disso, também não é difícil encontrar mitos em temas bem mais corriqueiros do que aqueles que conhecemos nas histórias.

No dia-a-dia, em quase todas as áreas de competência existem mitos. Seja sobre que tópico for, todos nós conhecemos aquelas meias-verdades que a generalidade da indústria acredita, mas que se formos ver na prática, está muito longe da verdade. Mas, o problema dos mitos, especialmente no quotidiano dos produtos digitais, é que a generalidade das equipas não os reconhece como tal, muitas vezes adoptando-os até como verdades inquestionáveis.

Fazer as perguntas certas

Em última linha, os mitos traduzem-se quase sempre num único desafio: fazer as perguntas certas não deixando nenhuma questão sem resposta. A bem da verdade, fazer as perguntas certas e a procura incessante pelas respostas é a única ferramenta que temos para descobrir e desconstruir qualquer mito, seja em que área de competência for.

Podemos acreditar que um mito é no final do dia, uma pergunta que ficou sem resposta ou uma questão com a qual nos contentámos com a resposta mais fácil. A preguiça aliás, é uma das características que mais contribuiu para a criação de mitos, pelo menos daqueles com o sentido que aqui falamos.

O dia-a-dia dos produtos digitais

Transpondo esta temática dos mitos para aquilo que é o dia-a-dia do desenho dos produtos digitais, podemos encontrar estas falsas ideias em quase tudo o que fazemos e nos mais variados tópicos.

Seja sobre user experience, user interface, user research, arquitetura de informação, user testing, design systems, acessibilidade digital ou qualquer outra área de competência que queiramos abordar, não será difícil encontrar ideias reconhecidas pelo senso comum como verdadeiras, mas que se fizermos as perguntas certas facilmente perceberemos que não correspondem à verdade.

É essencial basear, cada vez mais, todas as decisões do processo de desenho, nas suas mais variadas etapas, em factos, evidências e conclusões concretas. Para isso é fundamental conhecer muitos desses mitos e desconstruí-los, não dizendo simplesmente que estão errados, mas sim, indo ao encontro do seu verdadeiro sentido.

Mitos DXD

Os Mitos DXD é mais um contributo para discussão do tema dos mitos em muitas das realidades do dia-a-dia das equipas de digital product design. Trata-se essencialmente de um esforço para a identificação dos mais relevantes mitos que circundam muitas das áreas de competência relacionadas com o desenho de produtos digitais.

É uma ideia que provoca à discussão em comunidade, num esforço conjunto para a desconstrução de cada uma das falsas verdades que servem de mote. Publicados periodicamente, cada um destes mitos, focará uma ideia muito simples, mas que se constituem em alguns casos como premissas enraizadas pelo senso comum.

Sugestão de leitura

O tema dos mitos, não é tópico novo na indústria do digital product design. Felizmente é um tema bastante recorrente entre designers e não só, o que contribui em muito para a valorização do trabalho de todas as equipas.

Um dos projetos mais relevantes relacionado com o tema dos mitos é o UX Myths. Criado e editado pelos designers Zoltán Gócza e Zoltan Kollin, o UX Myths aborda exclusivamente mitos relacionados com a área de user experience (UX).

No UX Myths é possível encontrar a referência a bastantes mitos relacionados com UX, brilhantemente desconstruídos com recurso a muitas fontes e referências diferentes.

Fotografia © Tobias Keller