Nem todos os prazos são para levar a sério

Não raras vezes os prazos mirabolantes de muitos projetos, são o terror de qualquer equipa de design. Pela pressão e transformação acelerada que a disciplina do design teve que acompanhar nos últimos anos, os projetos de cariz digital são uma das vertentes onde a pressão dos prazos é ainda mais evidente. Tudo é para ontem, tudo já devia ter sido lançado no mês anterior, o time-to-market definido está quase a perder a oportunidade e com isso muito do negócio da empresa.

Esta pressão desmesurada dos calendários, afeta os projetos transversalmente e faz com que os processos de pensamento, desenho e desenvolvimento de novos produtos e serviços digitais tenham que ser ultra acelerados. Pelo caminho, quem tem esta experiência de forma recorrente, sabe que se perde muita coisa, mas ainda assim acaba-se quase sempre por se ouvir expressões do género “não tivemos tempo para mais” ou ainda “faz-se o que se consegue”.

Os prazos não são facultativos

Importa nesta altura deixar bem clara uma ideia: a existência de prazos não é facultativa e nada pode acontecer sem um planeamento claro e objetivo. O design como muitas outras disciplinas do conhecimento, não pode, nem deve, viver numa bolha onde existe todo o tempo do mundo para tudo. Não existe e por um lado, ainda bem. O design é uma disciplina de equilíbrios e entre eles está, naturalmente, o equilíbrio do calendário e dos prazos do projeto.

A existência de prazos, também no design, acrescenta pragmatismo ao processo. Ajuda a encarar o desafio de definir prioridades e visões evolutivas dos produtos e serviços digitais, ao invés de se trabalhar em lógicas de “one shot” que em nada beneficiam o trabalho iterativo das equipas com as pessoas.

A mentira dos calendários

Contudo, apesar da importância da definição de prazos é igualmente relevante, ter bem presente uma outra ideia e que de altura forma também representa a mentira por detrás dos calendários dos projetos. Cumprir prazos, especialmente os mais estapafúrdios e definidos só “por sim”, não concretiza o mais pequeno e singelo objetivo de negócio. Nenhum. Se o único objetivo associado ao cumprimento de um prazo do projeto é dizer “está feito” ou “foi lançado”, então esse é um prazo do mais inútil que há.

Especialmente na indústria digital, onde a concorrência em vários setores é muito feroz, existir simplesmente, sem acrescentar nenhum valor adicional ao dia a dia das pessoas, é meio caminho andado para um desperdício imenso de dinheiro, a tentar cumprir, lá está os ditos prazos, tão importantes e absolutamente fundamentais.

Vamos a decisões difíceis

Olhando para esta encruzilhada, aquela que cruza a necessidade de definir prazos para o projeto, mas ao mesmo tempo, não deixar que o cumprimento desses prazos seja um objetivo em si, importa perceber como desatar este nó.

Primeiro que tudo é importante ter bem noção que, especialmente em digital, todo o projeto é um trabalho evolutivo e iterativo. Nem todos os objetivos de negócio têm que ser abrangidos na primeira versão do produto ou serviço digital e não faz nenhum mal.

Por consequência, é fundamental saber e não ter medo de definir prioridades. Definir prioridades é de forma clara e objetiva, deixar coisas de fora de cada versão do produto ou serviço (medo, muito medo). Tentar definir prioridades e a seguir dizer que “tudo é prioritário” é um exercício redundante, pois se não estamos dispostos a deixar nada de fora, que prioridades vamos nós definir? Definir prioridades, tem ainda um desafio acrescido. É importante que estas prioridades sejam definidas com base em evidências e não simplesmente recorrendo ao “achómetro”.

Por último, falando de decisões difíceis, é absolutamente basilar, ter uma noção muito clara de qual é a proposta de valor mínima que podemos oferecer às pessoas e que justifica a existência do produto ou serviço digital. Sem isto, mesmo cumprindo todos os prazos possíveis e imaginários, não tenhamos a mais pequena dúvida, o nosso produto ou serviço corre o risco de ser uma redundância, ou pior que isso, irrelevante para as pessoas.

E tudo isto justifica não cumprir determinados prazos? Se não acrescentarmos o mínimo de valor ao quotidiano das pessoas, para que precisamos de cumprir esses prazos?

Fotografia © Jon Tyson