O designer enquanto alquimista do processo

É comum dizer-se em design, especialmente na disciplina de user experience (UX), que não existem fórmulas mágicas que funcionem para todos os projetos, especialmente quando falamos do processo de design associado a cada desafio. Falar de design é falar de processo, isto é uma verdade inquestionável. Se existe coisa que distingue o design da arte (uma discussão quase tão antiga como a própria disciplina), é a sua consciência clara pelo processo de chegar a uma determinada solução para a resolução de um problema em concreto.

Ora se o design é processo e não existem fórmulas mágicas para a resolução de cada projeto, isto quer dizer, que o designer deve ter alguma responsabilidade no desenho do próprio processo de trabalho em si? A resposta a esta questão pode variar conforme as opiniões pessoais de cada profissional, mas na verdadeira e mais ampla concepção do design, aquela em que acredito, a resposta só pode ser “sim, claro, sem sombra de dúvidas!”.

Diferentes desafios, diferentes processos

A par do processo e da sua importância para o design, também o contexto é uma ideia muito cara à disciplina. O contexto de cada desafio, o contexto de cada negócio, o contexto de cada pessoa, são peças absolutamente fundamentais para a criação das soluções que o design protagoniza. Sem isto, corremos o risco de falar simplesmente de uma peça de arte, capaz de despertar emoções, mas desprovida de propósito, porque não corresponde a nenhum contexto em concreto.

Quer isto dizer, que o contexto, pode e deve não só influenciar a solução em si, mas também, a forma de lá chegar, o próprio processo. Conforme cada desafio, é importante conseguir discernir qual o melhor caminho para lá chegar. Em cada caso, as equipas, os clientes, os objetivos de negócio, as ferramentas, os orçamentos, os calendários e muito mais, são diferentes e isso tem que forçosamente querer dizer que o processo de design deve ser pensado em específico para cada caso.

Claro que de uns projetos para os outros, existem abordagens e ferramentas que se podem reciclar e adaptar, mas isso não pode querer dizer, um processo de design “chapa 5” que é aplicado sempre da mesma maneira, procurando com isso obter-se resultados diferentes.

O designer alquimista

Não são boas notícias para os designers. Para além de conseguirmos construir a cada projeto novas e inovadoras soluções para cada desafio, temos que também nos preocupar em pensar que processo vamos utilizar em cada caso. Por outro lado, a bem da verdade, é também isto que distingue o design de muitas outras disciplinas do conhecimento. A sua consciência no desenho dos seus próprios processos de trabalho.

Embora saibamos que não existem fórmulas mágicas, o imaginário da química e da alquimia pode ser igualmente muito útil para ilustrar o papel do designer no desenho do processo. Cada processo tem que ser desenhado. Aliás, em muitos casos, pode-se dizer que é o próprio processo que define muito do sucesso ou insucesso do projeto, na medida em que más abordagens, dão por norma, más soluções ou de muitas maneiras desajustadas dos seus contextos e objetivos.

Por outras palavras, a fórmula mágica para o sucesso de cada projeto é o próprio processo e é aqui que entra o “designer alquimista”. Cabe ao designer, conhecedor de múltiplas estratégias, metodologias, métodos e ferramentas definir a fórmula processual para cada projeto. Misturando uma série de ingredientes e afinando a fórmula ao longo do tempo, ou seja do projeto. No momento em que é descoberta a fórmula capaz de resolver da melhor forma cada desafio, metade do trabalho fica feito.

É importante clarificar que a fórmula de cada projeto não se encontra na teoria. Ela é o resultado de um trabalho evolutivo ao longo de todo o projeto, que parte de uma ideia pré-definida, mas que conforme se vai misturando os ingredientes na prática do dia a dia, se vai descobrindo o que pode funcionar melhor ou não.

É um trabalho de paciência e perseverança este do “designer alquimista” do processo. Não se procura a fórmula mágica que converta todas as coisas em ouro, mas sim, a melhor abordagem para o contexto e processo de cada projeto.

Fórmulas infinitas

Cada novo projeto é uma oportunidade para construir novas fórmulas de processo. Mais que criar produtos ou imagens, o designer pode também ter a responsabilidade de pensar de raiz a sua própria fórmula de trabalho, na relação com o contexto particular de cada desafio. Copiar fórmulas nunca é boa solução. Pela multiplicidade de desafios a que poderemos ter que corresponder, vai chegar o dia em que aquela fórmula que sempre utilizámos não vai servir. É nesse momento, que vamos precisar mais do que nunca do “designer alquimista” do processo.

Fotografia © Bill Oxford