O poder da web está na sua universalidade

As palavras têm o poder que têm e no caso desta frase têm uma dimensão avassaladora. Se ao poder da frase, acrescentarmos a referência do seu autor, é quase impossível, ela não nos fazer questionar qual o seu verdadeiro sentido. Ainda para mais, num tempo, onde muito provavelmente nenhum de nós, questionará a utilidade ou relevância da web no nosso dia a dia. A frase é da autoria de Tim Berners-Lee, tão só o criador daquilo a que chamamos hoje de world wide web.

Poderemos, olhar para esta frase e para o sentido de “universalidade” através de diferentes perspetivas é bem verdade. Seja pelo lado da democratização do acesso à informação que a web permite ao criar uma rede global de comunicação, seja pelas oportunidades que esse acesso cria em áreas tão sensíveis como a educação, seja até, pela visão mais profunda que defende que este acesso é um aliado valioso da própria conceção democrática das sociedades contemporâneas.

A palavra-chave “acesso”

Contudo, em qualquer uma destas perspetivas, encontramos um denominador comum, a ideia de acesso. Nenhuma daquelas dimensões é possível, se as pessoas não conseguirem aceder efectivamente a toda a informação que circula livremente, quase sempre, nesta rede.

Ao falarmos de acesso neste contexto, facilmente nos vêm à mente vários tipos de problemáticas relacionadas e que de alguma forma podem potenciar ou inibir este acesso. O serviço de internet que é necessário para fazer a ligação, o tipo de dispositivo a utilizar, a forma de pesquisar essa informação ou ainda a literacia e destreza digital que é necessária para utilizar qualquer um destes instrumentos. Mas quantos de nós se lembraram, que a pessoa que está aceder, pode ela mesmo ter algum tipo de limitação que transforme por completo a sua capacidade de aceder, ou não, a essa informação online?

Tipos de limitações

Quando falamos em limitações, estamos, neste contexto e no mesmo sentido da frase do Tim Berners-Lee a falar de pessoas com algum tipo de deficiência. Pessoas que por uma razão ou outra, se vêem inibidas de algumas das suas faculdades sensoriais mais básicas. De forma mais ampla e com diferentes graus, poderemos identificar facilmente cinco tipos de diferentes deficiências:

  • Auditiva
  • Cognitiva, de aprendizagem ou neurológica
  • Motora
  • Discurso
  • Visual

É muito importante ainda, quando fazemos esta sistematização e quando relacionamos isso com o uso da tecnologia e do acesso à informação da web, ter bem presente que cada uma destas deficiências pode ter uma escala de limitação bastante grande. Nunca poderemos olhar para o tema numa perspectiva de tudo ou nada, porque essa visão extremada, deixará de fora uma série de realidades diferentes e igualmente relevantes.

Por exemplo, no caso da deficiência visual. Não estamos a falar só de pessoas que têm uma excelente visão de um lado ou que por outro lado estão completamente inibidas desta faculdade. Entre estes dois extremos, existem um sem fim de realidades e limitações que merecem atenção e que no final do dia representam um número bastante considerável de pessoas.

Para complicar ainda mais esta caracterização, existe igualmente um outro fator que devemos ter em conta. Estas limitações podem ser permanentes ou temporárias. Ao olharmos para todas estas preocupações, como em muitas outras coisas, é fundamental não olhar só para os opostos, porque isso será, neste caso ainda mais, bastante problemático.

Acessibilidade digital

Toda esta problemática que reflete sobre o acesso de pessoas com algum tipo de deficiência, permanente ou temporária, à tecnologia em geral e à utilização da web em particular, tem o nome de acessibilidade. Muito provavelmente o conceito de acessibilidade nem nos será estranho. Facilmente é uma palavra que poderemos ter ouvido relacionada com a utilização do espaço público “físico”. Acontece que também na web poderemos falar de acessibilidade.

Por exemplo, como é que uma pessoa invisual utiliza um website? Se não conseguir utilizar as mãos para escrever deixo de conseguir pesquisar no Google? Ou se partir um braço, que alternativas tenho à utilização do rato do computador?

Todas estas questões e muitas mais, são o espaço de trabalho da acessibilidade digital. Na prática, podemos definir a acessibilidade como o conceito que caracteriza a propriedade de um produto digital estar apto, ou não, a ser utilizado por qualquer pessoa, independentemente das suas limitações.

A acessibilidade digital, para além de dever ser uma preocupação transversal na sociedade é também uma área técnica. Pois a somar à preocupação inclusiva, é um espaço de trabalho que diz respeito a uma série de processos, conhecimentos, boas-práticas e ferramentas que permitem tornar efectivamente os produtos digitais mais acessíveis.

Essencial para alguns, útil para todos

Sobre o conceito da acessibilidade e a sua aplicabilidade, interessa ainda reter um outro aspecto fundamental. É um erro associar o tema da acessibilidade a algo estritamente relacionado com algum tipo de deficiência, mesmo não nos esquecendo que esta deficiência pode ser ela temporária ou permanente.

Uma coisa essencial a reter sobre a acessibilidade é a sua transversalidade, se não vejamos. Para tangibilizar este conceito, poderemos recorrer até à acessibilidade em espaços físicos.

Por exemplo, é inegável que uma rampa num edifício facilitará de forma determinante o acesso a esse espaço de uma pessoa numa cadeira de rodas. Isto é uma evidência. Mas já tinhas pensado que essa mesma rampa, que é essencial para essa pessoa em cadeira de rodas será de grande utilidade para outro tipo de pessoas? Pessoas com bicicletas ou com malas de viagem, mães ou pais com carrinhos de bebé, estafetas com grandes encomendas, etc.

Ilustração com vários exemplos de utilização no dia-a-dia de uma rampa de acesso a um edifício

É bem verdade que para nenhuma pessoa deste último grupo aquela rampa seria fundamental. Mas efetivamente torna o seu acesso ao edifício muito mais simples. Embora possa não ter sido construída a pensar em si, saem também bastante beneficiadas com a sua utilização.

Também na web assim é. Quando melhoramos um website ou qualquer outro produto digital, para facilitar o acesso e utilização por pessoas com algum tipo de deficiência, estamos ao mesmo tempo a facilitar em muito o acesso e utilização de um infindável número de pessoas. Esta é uma ideia fundamental sobre a acessibilidade: essencial para alguns, útil para todos.

A guerra dos números

Outro tópico que se é comum encontrar quando se fala de acessibilidade digital é desvalorizar o tema por causa dos números. Afinal de contas existem assim tantos invisuais que vão querer utilizar o meu website? Nesta altura tu próprio, mesmo que nunca tivesses ouvido falar sobre o tema, já consegues desconstruir tudo o que há de errado nesta ideia. Mas existe ainda aqui uma outra coisa a esclarecer, os números.

Trabalhar o tema da acessibilidade num produto digital, não permite apenas o acesso de determinadas pessoas ao produto, facilita também a sua utilização um número muito maior de pessoas, mesmo aquelas a que nem possamos atribuir nenhum tipo de limitação ou deficiência.

Por exemplo, quando melhoramos a legibilidade do texto no nosso website, estamos a facilitar a leitura desse texto por uma pessoa com astigmatismo, mas também estamos a facilitar a leitura para pessoas mais velhas que pelo seu envelhecimento natural vão perdendo alguma acuidade visual.

Números de referência

Para ajudar a corroborar, o argumento da amplitude de pessoas as quais poderemos beneficiar com o tema da acessibilidade, poderemos ainda recorrer, imagine-se, a alguns números (claro está):

  • Segundo a Organização Mundial de Saúde cerca de 15% da população mundial tem algum tipo de deficiência (diagnosticada ou não).
  • Estudos globais indicam, que 1 em cada 10 homens é daltónico. Isto quer dizer que 1 em cada 10 homens não reconhece determinadas cores ou as suas diferenças.
  • Os Censos de 2001 referem que em Portugal existem 636.059 pessoas com algum tipo de deficiência. A mesma fonte, diz ainda que em Portugal existem 163.569 pessoas com deficiência visual diagnosticada.
  • Os Censos de 2011 referem que em Portugal existem 2.644.805 pessoas com mais de 60 anos. A mesma fonte ainda, refere também que 961.925 pessoas em Portugal têm mais de 75 anos.

Será que acessibilidade diz respeito assim a tão poucas pessoas? O tema está muito longe de ser uma preocupação de nicho. Com o evoluir do tempo e de alguns destes números, ela será, sem sombra de dúvidas uma preocupação estratégica para o setor público e privado. Muitos dos serviços essenciais da sociedade são hoje digitais e com o passar do tempo é muito importante não esquecer os vários perfis de pessoas que os utilizam hoje e os vão utilizar ainda mais no futuro. Afinal de contas a geração Z não terá 20 anos para sempre.

Pelo lado de negócio

A acessibilidade tem que ser muito mais que uma premissa de negócio. No final do dia, estamos a falar de pessoas e esta preocupação deve ser muito maior que qualquer oportunidade. Mas, se quisermos racionalizar o tema também por este prisma, as vantagens também são imensas.

Para além da abrangência maior de públicos, um bom trabalho de acessibilidade no website, por exemplo, tem igualmente como vantagens:

  • Potenciar a implementação técnica de boas-práticas de SEO (Search Engine Optimization) e assim facilitar a sua promoção.
  • Melhorar a indexação dos conteúdos pelos motores de pesquisa para que mais pessoas acedam ao website.
  • Valorizar e enriquecer a usabilidade dos produtos digitais tornando mais fácil a sua utilização.
  • Prevenir problemas e processos legais por incumprimento do quadro legislativo em vigor sobre o tema.
  • Garantir uma excelente distribuição dos conteúdos em vários dispositivos digitais ao mesmo tempo.

Mãos à obra

Uma das ideias mais importantes da acessibilidade é ter noção que este é um trabalho iterativo, constante e que nunca é tarde para começar. Por outro lado, sendo um tema técnico, é muito importante ter a equipa certa para trabalhar o tópico no produto digital, seja ele um website, uma app ou qualquer outro formato.

Para formar esta equipa de trabalho é importante ter, para além da consciência da importância do tema, preocupação que:

  • É fundamental que todos na equipa, sejam diretores, gestores, colaboradores ou qualquer outro perfil técnico, estejam perfeitamente alinhados na importância e prioridade do tema.
  • É um tema que deve ser integrado estruturalmente em todas as ações que envolvam o produto digital e não aparecer só como preocupação no final do processo.
  • Existe um conjunto muito alargado de standards, como é o caso das Web Content Accessibility Guidelines (WCAG), que devem servir de referência técnica aos vários profissionais envolvidos.
  • Este é um trabalho que nunca está concluído e que deve ser feito ao longo do tempo com base em análises constantes e muitos testes com diferentes perfis de pessoas que utilizam o produto digital.
  • É possível quantificar de forma muito concreta o nível de conformidade do nosso produto digital com os standards de acessibilidade de forma automática (através de ferramenta digitais) e manual (através de análises de especialistas) e traduzir isso em ações concretas.

Vamos testar em que ponto estamos?

Existem ferramentas online que permitem avaliar de forma automática em que nível de conformidade com os standards, as WCAG, se encontra determinado website. Embora seja importante ter noção que estas ferramentas só conseguem avaliar até cerca de 30% dos critérios, elas dão boas pistas do que pode precisar de ser trabalhado.

É muito fácil testar! Basta ir por exemplo à ferramenta AccessMonitor da AMA a Agência para a Modernização Administrativa, inserir o endereço do website que pretende testar e a ferramenta devolverá um relatório técnico do que pode não estar tão bem.

Fotografia © Mikael Kristenson