O que tem o design que ver com a política?

Às portas de mais umas eleições autárquicas no país, a política através das propostas de cada candidato, volta a ocupar um lugar de destaque na vida quotidiana. Mais ainda se atendermos que é através das eleições autárquicas que os cidadãos têm a oportunidade de escolher qual a visão que pretendem para o lugar onde vivem.

É certo que poderemos (e deveremos) sempre discutir a qualidade das propostas ou até dos próprios candidatos mas, a democracia é isto, um espaço de debate aberto a todos que se faz, na visão mais nobre da política, de propostas, discussões e consensos.

O design e a política

A esta altura, muito provavelmente, já te estarás a perguntar: “Política? Aqui? O que é que isso tem que ver com design?”. A resposta é bem mais evidente do que possa parecer à primeira vista. Senão vejamos. A disciplina do design (e os designers) passam a vida apregoar duas coisas. Um, o design é uma disciplina focada na resolução de problemas concretos das pessoas. Dois, uma das suas características fundamentais é a sua consciência por um processo estruturado com diferentes etapas, em que a pesquisa é peça fundamental para a construção de soluções relevantes para as pessoas.

O design é por definição uma disciplina de causas. Não é nem pode ser asséptico ao meio que o envolve. Por muito que se queira, é impossível ao design não tomar partido de algumas perspectivas. Não as perspetivas de determinados partidos políticos, mas sim, de problemas que preocupam as pessoas no seu dia a dia e que através do seu processo o design pode ajudar a resolver.

Por outro lado, se olharmos para o design como uma disciplina capaz de construir soluções de forma abrangente, reparamos que a sua intervenção pode ir muito para lá do desenho de produtos ou serviços (as soluções mais recorrentemente associadas à disciplina) e ser também um instrumento político muito valioso.

Quando falamos da relação complexa entre a disciplina do design e a política (não com os políticos), poderemos chegar à conclusão que muitas daquelas que são as características da generalidade dos processos de design, poderiam ajudar em muito, a construção dos programas eleitorais dos candidatos, em especial no contexto das eleições autárquicas.

As eleições autárquicas têm uma característica fantástica. No final do dia, estamos sempre a falar de problemas concretos e muito próximos do dia a dia da vida das pessoas. Coisas que acontecem no seu bairro ou cidade e que para o bem e para o mal afetam a sua qualidade de vida.

A importância da pesquisa

Especialmente tudo o que toca à dimensão da pesquisa no processo de design, user research se estivermos por exemplo no contexto da área de user experience (UX), poderia ser uma ajuda muito importante para qualquer candidatura na construção do seu programa eleitoral. Através de métodos e ferramentas de pesquisa, cada candidato poderia ser capaz de identificar de forma concreta e estruturada, as reais necessidades das pessoas, envolvendo-as de forma determinante nesse processo.

A pesquisa constante das necessidades das pessoas e a utilização inteligente de dados quantitativos e qualitativos ao invés simplesmente do achómetro, poderia na política ser uma ferramenta de gestão com uma importância basilar para ir ao encontro das necessidades das populações.

A pesquisa (ou a falta dela) nos programas eleitorais

Para quem possa já ter lidos os programas eleitorais dos vários candidatos, mais que as parangonas que vamos vendo todos os dias comunicação social, as perguntas essenciais a fazer, pela ótica do design, poderiam muito bem passar por:

  • Quantas destas propostas resultam de necessidades concretas das pessoas?
  • Quantas destas propostas podem ser sustentadas com algum tipo de pesquisa quantitativa ou qualitativa?

Para lá do barómetro ideológico de cada candidato que naturalmente terá um impacto imenso na visão estratégica que possa ter, colocar em cima da mesa do debate, propostas alicerçadas em pesquisa garante que a gestão dos desafios da coisa pública vai muito além de estados espíritos ou achismos. O bem comum não pode ser gerido sem envolver de forma sincera e verdadeira as pessoas para quem se dirigem as ações. Por tanto, será perfeitamente legítimo questionar, quantas das propostas apresentadas pelos candidatos nos seus programa eleitorais nestas eleições autárquicas:

  • Envolveram a auscultação direta das populações garantindo a pluralidade da amostra?
  • Resultam de informação quantitativa recolhida através de questionários?
  • Tiveram em conta as conclusões de estudos nacionais e internacionais?
  • Avaliaram de forma estruturada exemplos de políticas e soluções implementadas noutras cidades nacionais ou internacionais comparáveis entre si?
  • Advêm da avaliação idónea de soluções implementadas no passado e das quais se consegue reconhecer pontos fortes e pontos fracos?
  • Ou ainda, refletem o resultado de um exercício colaborativo de construção de uma visão comum a uma equipa mais que a vontade de pessoas isoladas?

As políticas antes dos políticos

A política não é um exercício de individualismos. Não é, ou pelo menos não deveria ser, uma escolha entre uns e outros, mas sim, especialmente quando falamos do poder local, de um exercício de participação, também utilizando o design e muitos dos seus instrumentos de pesquisa, que pode e deve começar na própria construção das propostas dos programa eleitorais de cada candidato.

Personalizar simplesmente a política em pessoas, para o bem e para o mal, deixa precisamente a política refém dessas pessoas, ao invés das ideias que cada perspetiva, formas diferentes de ver a coisa pública, protagonizam.

Fotografia © Tim Marshall