Os meus maiores erros enquanto designer

Ao contrário de muitos outros, este é um pouco diferente do habitual, porque não vamos falar de técnicas ou inspirações, vamos falar sim de erros. Sim, é isso mesmo, erros. Também não vamos falar de erros no abstracto, com frases que comecem com aquele lugar comum de “errar é humano” ou que o erro faz parte do processo.

Vamos falar sim de alguns dos erros que cometi ao longo do meu percurso profissional, enquanto designer. Aqueles de que não me arrependo nem um pouco. Aqueles que foram muito provavelmente as lições mais importantes (mas também as mais difíceis) do meu percurso enquanto profissional.

Ditadura do sucesso

Mas gostava de começar um pouco mais atrás e partir antes de uma pergunta. Porquê falar de erros, ainda para mais erros tão concretos? Eu respondo com uma outra pergunta. Quando foi a última vez que leste algum artigo sobre erros? Hoje? Ontem? Anteontem? Nunca? Naturalmente a resposta depende de tudo aquilo que cada um de nós está a ler, mas a minha sensação é que falamos pouco do “erro”. Fomos habituados a ver o sucesso escarrapachado em tudo o que são redes, e parece que o erro saiu do nosso léxico.

Claro que gostava de fazer já uma declaração de interesses. Não fiz nenhum estudo cientifico para fazer esta afirmação. Sou eu com o “achómetro” (erro meu portanto) ligado no máximo e a partilhar uma ideia muito pessoal. Mas, a verdade é que vivemos uma época da “ditadura do sucesso”, onde existem mestres e gurus de tudo e de nada, que parece que já nasceram assim. Não nasceram (lamento ser eu o portador desta má notícia). E no meio disto tudo, o erro vai sendo diminuido, vai ficando mais pequeno, vamos ficando com vergonha de cometer erros, até chegarmos àquele ponto, em que de erros só se fala nas citações inspiradoras de uma qualquer rede.

Os meus erros enquanto designer

Vamos falar então de erros. Vamos assumir os erros que cometemos, seja em que área profissional for, especialmente naquelas que todos os dias têm por missão pensar, desenhar e desenvolver novas experiências digitais. E existe alguma área onde falar de erros faça mais sentido que no digital? A indústria que muda à velocidade da luz e o que hoje é uma certeza, amanhã transforma-se numa memória?

Tens dúvidas disto? Quem se lembra do Flash? Sim, o velhinho Macromedia Flash? Aquela tecnologia que ia salvar o mundo e que “obrigava” qualquer designer que quisesse fazer carreira em digital a aprender AS2. Onde era possível fazer coisas incríveis, mas que hoje não passa de uma memória vintage. Pois é, mudança constante.

Mas falemos então de erros, os meus erros. Desde que comecei a trabalhar enquanto designer que como qualquer profissional, passei por várias etapas. Contudo, todas elas foram uma fonte de inspiração imensa, especialmente através dos (muitos) erros que fui cometendo. Aqui fica um apanhado daqueles que foram, sem sombra de dúvidas, os maiores, mas também os mais ricos em lições.

1. Ninguém quer saber do design (e ainda bem)

A verdade, pelo menos naquela em que acredito, pode ser um pouco dura, mas resume-se a isto. Nenhum dos meus problemas enquanto designer interessa às pessoas que utilizam os produtos que crio. As pessoas não querem saber que eu não tenha a informação certa para trabalhar. Não estão nem aí se por falta de tempo não consigo testar as soluções em condições (mas vão sentir muito bem se o resultado final for mau). E não querem nem saber de tipos de letra, equilíbrio de cores ou da teoria da Gestalt.

Nada disto lhes interessa e ainda bem. Esta é a minha missão e da equipa com quem trabalho. Resolver este tipo de desafios, mesmo que as pessoas nem sequer imaginem do que se trata. Mas a verdade é só uma, se a solução for má, as pessoas vão sentir e aí não é só o designer que está em causa, mas toda a equipa, independentemente se se é designer, developer, project manager, product owner, etc.

2. Não saber utilizar o vocabulário certo (mesmo a falar português)

Uma das coisas mais importantes que aprendi com o tempo, foi o poder do glossário e do discurso. Por incrível que pareça, mesmo quando se fala o mesmo idioma, as variações de léxico entre áreas profissionais diferentes são imensas. O trabalho de design é, por si só, um trabalho multidisciplinar, que obriga todos os designers a comunicar com muitas áreas diferentes. Conseguir estabelecer uma plataforma de diálogo comum nas equipas é de uma enorme importância.

Não se trata só de chamar as coisas pelos nomes, ou toda a equipa assumir os mesmos significados para os conceitos (por si só já um desafio imenso). Mas sim, porque cada área profissional dá importância a coisas diferentes. Aquilo que é fundamental em design, não o é para o development. Isto não é bom nem mau, é o que é. Garantir que conseguimos falar com todas as equipas da mesma forma, respeitando a sua visão mas ao mesmo tempo, fazendo ver também o nosso lado, é um dos meus maiores desafios.

3. Desvalorizar o poder do consenso (só o bom trabalho não chega)

Até dada altura tinha a ideia que se o trabalho fosse bom, tudo ia acontecer quase por artes mágicas. Acreditava eu, que se aquilo que estivesse a produzir fosse resultado de um processo de design com princípio, meio e fim e o resultado final tivesse alguma qualidade, tudo aconteceria naturalmente. A verdade é que não. Com o tempo e a evolução do trabalho em digital, apercebi-me que só bom trabalho não chega. O resultado final de qualquer projeto, para além do somatório de um infindável trabalho de equipa, tem que estar alicerçado num equilíbrio forte de várias fatores.

Uma solução, seja ela qual for, tem que ser o resultado perfeito de vários tipos de consensos, mesmo que às vezes informais. Em primeiro lugar, claro, com a equipa de projeto. Em segundo, com o cliente da encomenda, seja ele interno ou externo. Por último, mesmo que não dependente disso, com o maior número de pessoas possíveis do ecossistema no qual se esteja a trabalhar. Por exemplo, se a solução para um produto interno de uma empresa, for resultado de um consenso informal com os trabalhadores dessa empresa, isso é meio caminho andado não só para que o projeto corra bem, mas principalmente para que essas pessoas se tornem também “embaixadores” da solução.

4. Os egos ficam à porta (tudo serve para ser alterado)

Depois de passarmos horas e horas às voltas com um projeto é quase impossível não desenvolver uma relação de afinidade com aquilo que estamos a fazer. É o resultado do nosso trabalho, do nosso esforço e é muito saudável que sintamos orgulho nisso. Contudo, é muito importante não deixar que isso preencha o ego e me deixe acreditar que aquela é a única maneira de resolver aquele problema específico.

O espirito do design, muito em especial do digital, é iterativo. É feito de faz e refaz. É feito de alterações e evoluções. Aprendi, a custo claro está, que nada é feito para ficar como está. Quanto mais partilharmos com a equipa e o cliente e testarmos com as pessoas, melhor será o resultado final, mesmo que possa ser muito diferente daquilo que tinha imaginado no início do projeto.

5. Não perceber como apresentar o meu trabalho (seja para que público for)

Pode parecer de menor importância, mas este foi de longe um dos erros, mas também das lições, mais relevantes. Primeiro que tudo, nem sei bem se este (como todos os outros) não é um erro que ainda cometa todos os dias. Mas a ideia é simples. Ninguém pode reconhecer valor na solução que esteja apresentar, seja ela de que tipo for, se não a perceber. Ninguém pode gostar de algo que não compreende ou que não lhe seja explicado de maneira simples, numa linguagem perceptível. Não se trata da solução em si, mas sim da forma como se apresenta e se escolhe a informação essencial a transmitir, dependente das pessoas com quem tenho que comunicar.

Nada disto está relacionado com PowerPoints ou Keynotes, mas sim em conseguir contar uma história cativante e envolvente que valorize a solução de design em causa. Não se trata de um processo de venda, mas sim, conseguir escolher de forma muito pragmática o que dizer em cada momento na linguagem mais simples possível. Mesmo até que isso signifique reduzir ao mínimo a informação a transmitir em cada momento e deixe alguma coisa de fora. Se dúvidas tivesse que a simplicidade é um fator decisivo não só para a compreensão mas também para a confiança, poderia recorrer a uma das leis da simplicidade do designer John Maeda e que refere que “in simplicity we trust”.

A confiança dos erros

Demorei algum tempo até chegar a esta frase do Mike Monteiro, mas ela representa bem o potencial dos erros para cada profissional. Diz o autor no seu livro Design is a Job que “confidence doesn’t come from knowing you’re right — it comes from being okay with failing.” E a verdade é esta mesmo. É parvo cometer muitas vezes os mesmos erros. Mas, se conseguirmos aprender a lição certa com cada erro que cometemos, o resultado só pode ser a confiança para errar melhor.

A confiança de que não tem mal nenhum errar e que o erro é porventura a melhor “formação” que alguma vez poderei fazer. Embora muitas vezes possa pensar que teria sido um profissional melhor se não tivesse cometido alguns destes erros (isso ter-me-ia pelo menos poupado de algumas vergonhas) a verdade é que foram (e são todos os dias) aprendizagens muito importantes. Aprendizagens valiosíssimas, não para deixar de errar, mas simplesmente para cometer erros diferentes.

Fotografia © Jack Anstey