Pensar e desenhar com princípios

Neste ponto de evolução da sua história, dizer que o design é muito mais que a simples criação de formas e imagens, desprovidas sem qualquer sentido, contexto ou princípios, pode acabar por se tornar “mais do mesmo”. Embora em muitas situações o design seja ainda assumido como a disciplina dos “bonecos”, muitas empresas, em especial organizações ligadas à indústria digital, assumem já esta disciplina como algo essencial para os seus negócios.

O tema dos princípios em design é um tópico complexo e com muitas zonas cinzentas. Façamos um teste de consciência. Quantos designers conseguem de forma mais ou menos clara elencar os “princípios” pelos quais norteiam o seu trabalho e perspetiva de resolução dos problemas que todos os dias são chamados a resolver? Por outro lado, quantos desses designers, afirmam a pés juntos que o design é muito mais que “bonecos” e sim uma disciplina guiada por princípios claros e relevantes?

O grau de amadurecimento necessário

Apesar de tudo, é importante não fazer do tema dos princípios de design mais um ponto na checklist dos currículos. Definir princípios, representa em última análise a adopção de um compromisso. Um compromisso, não com a equipa, com o cliente ou com as pessoas em geral, mas consigo próprio. Nenhum conjunto de princípios é realmente útil se não tiver uma adopção individual. Mais ainda, quando falamos de princípios que caraterizam a perspetiva de cada profissional de design. Nenhum conjunto de princípios serve de grande coisa se não for mais que um conjunto de pontos numa folha A4.

Este não é um caminho fácil. Definir algum tipo de princípios de design tem que ser fruto de um trabalho de reflexão profundo. Uma visão contextualizada do meio, com ambição de futuro, que reconheça uma identidade única ou uma determinada perspetiva de encarar cada desafio. Contudo, definir princípios de design também é um exercício de amadurecimento que requer o seu tempo, sem pressas nem urgências, mas resultado de um caminho de descoberta sincero.

Exemplos de princípios de design

Quando falamos de princípios de design, como em muitas outras coisas, é também sempre inspirador conhecer o caminho feito por outros designers. As referências de outros profissionais são sempre provocações muito interessantes à nossa própria reflexão, tendo a disciplina do design hoje, já muitas e boas referências de princípios.

Sejam as Leis da Simplicidade de John Maeda ou os 10 Princípios do Bom Design de Dieter Rams, passando claro pelas 10 Heurísticas de Usabilidade de Jakob Nielsen, muitas são as referências que têm contribuído para o amadurecimento da própria disciplina e do seu propósito para os negócios mas também para a sociedade. A par dos muitos exemplos individuais, a plataforma Principles.Design criada por Ben Brignell pode ser uma excelente forma de aprofundar e descobrir outros conjuntos princípios.

Uma proposta de princípios

Resultado de um amadurecimento de vários anos na prática da disciplina de design, o exercício de definir os princípios que de alguma forma possam caraterizar uma determinada abordagem pessoal, constitui-se como um trabalho permanentemente em aberto. Muitos podem ser os caminhos e opções não faltam. Mas, definir princípios é também um exercício de escolha e identificação do essencial em cada momento.

Assumindo o design enquanto visão transformadora da sociedade e a criatividade premissa para a criação de marcas excepcionais, capazes de moldar as relações das pessoas com estratégias, experiências e produtos com significado, este manifesto assume-se como o preâmbulo para a prática do dia a dia. Num contexto onde cada pessoa é protagonista da sua própria “marca”, é de uma importância fundamental pensar conscientemente não só naquilo que se faz, mas também como e porque se faz.

Mais do que meras concepções abstratas, este manifesto representa um compromisso sincero entre o “saber fazer” e o “saber pensar”, ao mesmo tempo que se torna no ponto de partida para afirmação de uma abordagem própria em todos os novos projetos, que mesmo podendo ser muito díspares entre si, refletem uma ambição comum.

  • Afirmar o autêntico sentido da cidadania em todas as realidades.
  • Desenvolver marcas criando estratégias, experiências e produtos únicos.
  • Procurar uma atitude multidisciplinar na afirmação de uma ideia.
  • Arquitetar a forma em função do seu propósito essencial.
  • Perceber a simplicidade eficaz como antítese do simplório.
  • Olhar ao detalhe até ao ponto em que ele o deixa de ser.
  • Traduzir em soluções a pesquisa e aprendizagem permanente.
  • Encarar a experimentação como um processo natural de evolução.
  • Fazer do método o principal fator de diferenciação.
  • Olhar para o imprevisto como uma oportunidade de superação.

Desafio permanente

Pensar e desenhar com princípios é um trabalho de introspecção permanente. Tal e qual como o design em si, os princípios devem igualmente ser resultado do contexto e momento de cada profissional. Por isso mesmo, é importante assumir que nenhum princípio está escrito na pedra e é eterno. O desafio constante de questionar e avaliar os princípios pelos quais regemos as nossas ações, pode ser um excelente contributo para a própria evolução desses mesmos princípios.

Fotografia © Raffaele Brivio