Simplicidade: entre o simples, simplório e o estritamente necessário

Quase tão antiga como a discussão “do que é o design?” o conceito de simplicidade e todas as suas problemáticas associadas, sempre ocuparam na disciplina um lugar fetiche de debate. Mesmo tendo a disciplina do design já décadas de evolução histórica, tentar definir o que é ou não é simplicidade, um dos conceitos mais umbilicais do design, continua a levantar paixões fervorosas.

Eventualmente está por escrever a história da simplicidade no design. Quem sabe um dia não possamos olhar para o tema com uma perspetiva temporal que cruza os movimentos de design e a importância deste conceito. Mas, mesmo com esta enciclopédia em falta (ou talvez não), à luz da história do design é possível encontrar meia dúzia de momentos onde as perspectivas sobre o conceito de simplicidade se foram alterando bastante.

Simplicidade enquanto necessidade

Em tempos ouve na história que a simplicidade para o design, não era uma escolha, era uma necessidade dramática. Felizmente, estamos hoje muito longe dos constrangimentos mas também desafios pelos quais teve que passar o design (como o mundo) por exemplo no período do pós segunda guerra mundial, onde era exigida como necessária à reconstrução de uma Europa completamente devastada. Era necessário reconstruir tudo aquilo que a guerra tinha destruído e a simplicidade foi também um instrumento valioso.

Embora hoje possamos olhar para a simplicidade como uma concepção ou opção estética, naquela época existia, acima de tudo como uma necessidade absoluta. Era necessário reconstruir da forma mais rápida e barata possível, coisas essenciais à vida das pessoas e para as quais todos os recursos era escassos.

Aqui a discussão da simplicidade associada a correntes de pensamento mais profundas fazia pouco sentido, porque o contexto determinava que esta eventual escolha não era se quer uma opção.

Simplicidade enquanto estética

Por outro lado, hoje temos a felicidade de o design se ter “soltado” de tais exigências. Temos a oportunidade de procurar um design, descomprometido formalmente de constrangimentos extremos de época, capaz também de se concentrar numa essência experimentalista, face aos novos desafios do seu tempo. Um design que assuma a simplicidade enquanto processo de escolha do essencial e não simplesmente enquanto necessidade dramática.

Curioso é perceber que mesmo que ao longo da história, o design tenha no que toca à simplicidade, deambulado entre a exuberância extrema e o sentido minimalista da forma, a simplicidade assume-se hoje em alguns casos como uma “estética” identitária. Seja de grandes marcas de consumo ou produtos menos acessíveis à generalidade das carteiras, a simplicidade que outrora era uma necessidade, é agora motivo pelo qual se justifica pagar milhares (ou milhões) de euros.

Parece quase um contraditório quando comparamos estas duas concepções históricas de simplicidade, mas a verdade é que o mesmo conceito serve de preâmbulo a dois momentos e concepções bastante diferentes de simplicidade, que nunca podem ser desligados dos contextos históricos em que imergiram.

Esquema com as 10 leis da simplicidade de John Maeda
© John Maeda

As novas necessidades da simplicidade

Apesar de tudo isto, a história da simplicidade está bastante longe do seu capítulo final. Para além de ser, como a própria disciplina do design, um conceito em permanente mutação e reinterpretação, vivemos uma época em que a necessidade da simplicidade se torna novamente dramática, desta vez por razões bem diferentes daquelas que existiram no pós segunda guerra mundial.

O ritmo de vida alucinante das famílias, a quantidade de estimulos desmesurados, a digitalização da vida e de muitos dos processos mais básicos, muito provavelmente trouxe consigo o advento de uma nova era para a simplicidade. Uma era onde a simplicidade pode ser a resposta para o caos imagético e de mensagens em que vivemos e que se posicionam como uma barreira bastante grande às relações sinceras e simples das marcas com as pessoas.

Ao contrário de outros tempos, o mundo não está em construção, eventualmente estará em processo de reconstrução sustentável, mas hoje como noutras épocas, a simplicidade torna-se cada vez mais essencial, para ajudar as pessoas a decidirem o que é ou não é mais relevante para a sua vida, sem que isso as afaste do essencial do quotidiano.

Fotografia © Christin Hume