Testes de usabilidade não têm que ser um filme de terror

A importância na área de user experience (UX) de testar as soluções de cada produto digital através de testes de usabilidade é hoje absolutamente inegável. Seja pela complexidade cada vez maior desses produtos digitais, a sua adaptação a processos e necessidades do quotidiano, ou até mesmo a digitalização de muitas áreas de negócio das empresas, faz com que estes produtos, se quiserem ter sucesso, não possam viver desligados daquilo que é o feedback real dos seus utilizadores.

Contudo, a prática de muitos contextos, sejam eles empresariais ou públicos, tende a desvalorizar a necessidade de envolver os utilizadores nas dinâmicas de avaliação. Por várias razões diferentes, não é raro ouvir um conjunto muito alargado (e algumas vezes criativo) de desculpas que desvalorizam a importância dos testes de usabilidade para a evolução verdadeira dos produtos.

É aqui que começa o filme de terror

É no momento em que as desculpas para não se fazerem testes de usabilidade aparecem, que começa o filme de terror em que se pode tornar os testes dos produtos com os utilizadores. Um produto digital que não é construído tendo por base a evolução iterativa e teste permanente com os utilizadores, tem um potencial imenso para se tornar um morto vivo. Um zombie, um Frankenstein, sem propósito que vai acoplando em si peças desconexas, ao sabor do roteiro idealizado, muitas vezes, por quem nem se quer vê o filme ou então quem já o viu vezes de mais.

Por outro lado, é fundamental que quando falamos de testes de usabilidade exista uma ideia muito clara na mente de todos os intervenientes: nós (enquanto equipa de projeto) não somos os utilizadores! Pelo grau de relação ou imersão nos desafios e soluções do produto, é impossível que tenhamos a capacidade de abstração para testar o produto como um qualquer utilizador.

Vamos ver um filme diferente?

O filme de terror em que se pode tornar os testes de usabilidade, ou o produto digital com a sua ausência, é uma longa metragem que não queremos ver muitas vezes na vida. Este é um filme para o qual compramos bilhete, por norma, porque não temos tempo ou dinheiro para uma “grande produção”, mas que acabam sempre em realizações com muito baixa nota no IMDB.

Reconhecendo não só o valor, mas também a necessidade de realizar regularmente testes de usabilidade e não sendo nós os utilizadores, existem duas ideias muito simples, mas também, muito relevantes, que podem ajudar em muito a reforçar esta importância. Dois grandes argumentos, que em muitos contextos diferentes, poderão ajudar as equipas a “vender” a necessidade de realizar testes de usabilidade recorrentemente.

1. Quanto mais cedo, melhor

Um dos conceitos fundamentais dos testes de usabilidade é que estes não são algo que deva ser feito só no final do projeto. Quanto mais cedo no processo se conseguir testar soluções com utilizadores, melhor. É importante ter também consciência que estes testes podem ser feitos com base em diferentes tipos de protótipos.

Para testar algumas funcionalidades de um produto, não é necessário fazê-lo tendo por base a sua versão online. É possível testar com utilizadores tendo por base por exemplo, protótipos interativos produzidos com ferramentas como o Figma ou o Invision ou até mesmo, em muitos casos, protótipos em papel.

Existe mais um dado muito relevante para testar cedo as soluções. Quanto mais tarde isso acontecer no processo, maior será o custo das alterações a introduzir. Um estudo de Scott Ambler, Vice Presidente e Chief Scientist para Disciplined Agile do Project Management Institute, concluiu que conforme o processo avança, o custo das alterações sobe exponencialmente.

Gráfico sobre o aumento exponencial de custos de alterações decorrentes de user testing
© Scott Ambler

2. Não são necessários muitos utilizadores

A somar ao argumento anterior de que quanto mais cedo conseguirmos testar soluções com os utilizadores, mais barato ficará fazer alterações, é de primordial importância, desconstruir um outro mito que muitas vezes nos leva a comprar o bilhete para o filme errado. Para testar soluções não o precisamos de fazer com dezenas ou centenas de utilizadores.

Os testes de usabilidade, não tendem a ser um trabalho quantitativo, mas sim qualitativo. O que está em causa não é ver quantas vezes os utilizadores encontram determinados problemas, mas sim, simplesmente, encontrar esses problemas. Não é necessário que centenas de utilizadores se deparem com o mesmo problema no produto, para percebermos que aquele é um problema.

E também aqui existem alguns estudos que nos ajudam a tangibilizar este conceito. A Nielsen Norman Group uma das empresas de referência na área de user experience (UX) chegou à conclusão, através de um estudo que desenvolveu, que em muitos casos, poderá apenas ser necessário testar com cinco utilizadores diferentes para encontrar a grande maioria dos problemas de cada solução em teste no produto digital.

Gráfico sobre a identificação através de user testing de melhorias no produto digital
© Nielsen Norman Group

Quem não gosta de uma boa comédia romântica

Nem os testes de usabilidade precisam ser um filme de terror nem o nosso produto digital precisa se tornar uma personagem terrífica e morinbunda. O que está em causa, a relevância do nosso produto para os utilizadores, é demasiado importante para escolhermos o filme que ver, simplesmente vendo o trailer de 30 segundo ou lendo meia dúzia de linhas da sinopse. É fundamental encarar os testes de usabilidade e os seus benefícios com bastante seriedade, pois isso trará a cada negócio uma muito maior competitividade num mercado cada vez mais global.

Mas, seriedade não quer dizer em nenhum momento, especialmente nos testes de usabilidade, complexidade. É muito fácil realizar sessões de testes com utilizadores, sejam presenciais ou em remote. Quanto mais simples e informais forem estas sessões, melhor, pois isso deixará não só os utilizadores muito mais à vontade, mas também tornará a sessão muito mais fluída e genuina.

O filme das nossas vidas

Testar soluções com as pessoas reais por detrás dos nossos “utilizadores”, tem tudo para ser um processo simples e quem sabe até divertido. É incrível ver as pessoas de forma descomplexada e muito sincera, utilizarem o resultado do trabalho de todas as nossas equipas. Para além de ser uma experiência muito rica, tem tudo para ser também um processo informal com uma pitada até de boa disposição (não será este o remédio para muitos dos problemas do dia-a-dia?).

Por outro lado, é quase impossível, depois de se passar pela experiência de testar regularmente soluções com utilizadores, não ficar apaixonado. A generosidade das pessoas na partilha das suas opiniões é imensa (já para não dizer, barata). Para além de conseguirmos recolher insights muito valiosos e práticos para a melhoria dos nossos produtos, esta evolução traduzir-se-á no curto, médio e longo prazo em Óscars, quer dizer, em melhores e mais negócios para as empresas.

Fotografia © Stefano Pollio