Transformação digital “à bruta”

Nunca como em 2020 se falou ou escreveu tanto sobre transformação digital. Muito por causa “daquela coisa que todos sabemos qual é” 🦠 a sociedade em geral e muitas empresas em particular foram obrigadas (a palavra é mesmo esta) a deixar de assobiar para o lado ou a chutar o tema da transformação ou transição digital para canto. Embora a causa estivesse ao nível dos filmes apocalípticos, a verdade é que todos nós vivemos uma situação em que o digital se tornou quase um caminho sem alternativa.

Sejamos claros, o cenário que vivemos é uma situação extrema e todos queremos que não se volte a repetir. Associar transformação digital à pandemia, pelo menos com tanta força como tem acontecido, queremos acreditar que não será a única maneira de falar do tema, até porque não deveria.

Transformação ou transição digital?

O termo “transformação digital”, não raras vezes também podemos encontrar transfigurado na expressão “transição digital”. Para começo de conversa, importa talvez clarificar que utilizar um termo ou outro não é mesma coisa e pode dizer muito sobre a perspetiva pela qual se olha para o tópico.

Transição digital, pressupõe na mais simples das interpretações, fazer um caminho. Parte-se do cenário atual e é necessário fazer transitar essa situação para um novo contexto, neste caso “mais digital”. É um termo focado, lá está, no caminho a percorrer e não necessariamente na mudança que é necessário fazer para ir de um ponto ao outro.

Por outro lado, transformação digital, encerra leituras bastante mais desafiantes. Não basta fazer só um caminho, é necessário transformar profundamente o ponto do qual se parte, para se atingir uma nova realidade. Transformar é também um ato pró ativo, um desafio alicerçado na exigência com o presente e que procura de muitas maneiras, tentar antecipar o futuro. Não por coincidência também a palavra “transformação” tem em si incluída a palavra “ação”.

Quando falamos de transformação digital “à bruta”?

Não sendo nem de perto nem de longe um termo novo no léxico da economia, a verdade é que a transformação digital, em especial em Portugal é um caminho muito longo ainda. Através de muitos estudos e relatos de académicos vemos, que embora se tenha feito muito caminho nos últimos anos os índices de digitalização de serviços, hábitos de compra, melhoria de processos através da tecnologia, níveis de simplificação da burocracia, entre outros, apresentam ainda indícios que nos devem fazer pensar.

Embora a pandemia tenha acelerado em muito vários processos de transformação digital, a verdade é que em bastantes casos isso também aconteceu “à bruta”. Por processos “à bruta” quer se dizer, processos que poderiam ter sido antevidos e pensados com o devido cuidado, mas que de um momento para outro se tornaram essenciais, fazendo com que as equipas que já o deviam ter feito e não fizeram, não pudessem fazer um trabalho estruturado.

Falamos de transformação digital “à bruta”…

1. Quando de um contexto generalizado de ceticismo pelo teletrabalho e um grau de desconfiança pelos trabalhadores neste contexto, passamos para uma situação de mudança de processos e dinâmicas de equipa à pressa e pressões dos trabalhadores para não voltarem aos escritórios em permanência e que se provou ser desnecessário.

2. Quando quase da noite para o dia começam aparecer lojas online em quantidades bíblicas, para tudo e mais alguma coisa, mas sem nenhuma estratégia por detrás, modelos de negócio sustentáveis e organização logística que permita oferecer aos consumidores uma proposta de valor relevante.

3. Quando muitas empresas percebem, através das mudanças bruscas do mercado ou da concorrência, que a sua gestão é essencialmente alavancada pelo o “achómetro” sem nenhum tipo de data science e data intelligence que lhes permita analisar tendências através de dados e daí retirar insights valiosos.

4. Quando a escola e a formação continua de adultos se vê privada do seu modelo de aprendizagem quase secular e se percebe que o foco dos processos pedagógicos, sempre estiveram associados a uma determinada forma restrita de aprender, mais do que nos conhecimentos, competências e atitudes que se pretende educar.

5. Quando a administração pública, pela própria pressão política ou a insatisfação latente dos Cidadãos, se vê obrigada a mudar por completo o modelo de serviços públicos que presta e tenta fazer isso alavanca nos processos opacos e linguagem burocrática que sempre foi utilizada na relação do Estado com os Cidadãos.

Estes são só alguns exemplos, por ventura alguns dos mais evidentes nos dias que correm, daquilo a que poderemos chamar de transformação digital “à bruta”. Situações, onde o contexto da pandemia obrigou à mudança acelerada e atabalhoada em muitos casos com resultados desastrosos, pois provavelmente a falta de planeamento vai gerar no futuro problemas maiores do que os iniciais.

Por onde começa a transformação digital?

A fórmula para uma transformação digital sem ser “à bruta” é muito pouco clara e até replicável em todos os contextos. A transformação digital necessária, depende muito do contexto de cada organização e a sua ambição para o futuro. Ainda assim, toda a transformação, especialmente a transformação digital, parte de uma premissa bastante simples: o inconformismo!

Inconformismo com a realidade do presente tentando perceber o que poderá acontecer no futuro. Uma avaliação exigente e permanente do ponto de situação atual, envolvendo colaboradores, consumidores e Cidadãos, ouvindo as suas preocupações e necessidades de forma sincera (mesmo que isso nos seja difícil de ouvir). Garantir que as decisões, principalmente as mais estratégicas, são tomadas tendo por base insights e evidências concretas ao invés de opiniões pessoais.

Todos queremos acreditar que esta foi a última pandemia a que assistimos nas nossas vidas. Esperemos que sim. Mas, no que toca à transformação digital, não deveríamos cair nos mesmos erros. Não nos deveríamos enquanto sociedade, sentar confortavelmente no comodismo do quotidiano e ficar pelas nossas zonas de conforto. Antever o futuro tem muito pouco que ver com bolas de cristal e muito mais que ir à procura dele.

Fotografia © Efe Kurnaz