Já perdi a conta do número de vezes que tentei explicar, na prática, muitos dos critérios de sucesso das Web Content Accessibility Guidelines, mais conhecidas pela sigla WCAG.
O mesmo número de vezes que as tentei explicar, vi, em muitos contextos (artigos, palestras, webinars, etc.), as WCAG apresentadas como referência a partilhar com as equipas para que estas iniciem o trabalho de implementação e correção da acessibilidade dos seus produtos e serviços digitais.
Quanto a mim, isto é um erro monumental. Se queremos mesmo que equipas iniciem este caminho de transformação, começar por partilhar as WCAG por si só pode não ajudar quase nada. Especialmente se essa partilha for feita, partilhando só meia dúzia de ligações exclusivamente das próprias WCAG. Mas vamos por partes.
Definir padrões para a web
As WCAG são um conjunto de diretrizes publicadas pela W3C. Isto, só por si, não é coisa pouca. A W3C é o consórcio internacional, fundado e, até há bem pouco tempo, liderado pelo próprio criador da World Wide Web, Tim Berners-Lee. É esta organização, em conjunto com os mais reputados especialistas, universidades e empresas de tecnologia de todo o mundo, que define os padrões tecnológicos da web. A evolução do HTML 4 para o 5? É “culpa” da W3C. A definição do CSS? Também. E por aí em diante.
Uma das áreas de trabalho da W3C é, precisamente, a acessibilidade, por meio da sua Web Accessibility Initiative (WAI). Tudo o que tem sido o trabalho da W3C na área de acessibilidade digital acontece, precisamente, por meio da WAI, que tem um grupo de gestão próprio, responsável por todas as suas iniciativas.

Muito mais que as WCAG
Uma das missões da WAI da W3C é definir quais são os padrões e as boas práticas de acessibilidade digital de forma transversal. As WCAG sim, mas não só. As WCAG são, sem dúvida, o conjunto de diretrizes de acessibilidade mais conhecidas. Disto não há a menor dúvida. Mas o trabalho de criação de diretrizes de acessibilidade da W3C, por meio da WAI, inclui também a edição de recomendações para ferramentas de autoria (por exemplo, Content Management Systems, os chamados CMS) e ainda para agentes de utilizadores (por palavras mais simples, os web browsers).
É importante compreender todo este ecossistema de diretrizes, porque isto ajuda a perceber bem a amplitude do trabalho de acessibilidade, conforme o tipo de aplicação em que estamos a trabalhar. Cada peça do ciclo de relação dos utilizadores com os conteúdos tem a sua especificidade técnica e existem preocupações de acessibilidade digital que são fundamentais ter com cada uma dessas peças.

As WCAG são fantásticas
Percebido este contexto mais amplo, vamos então às WCAG. Publicadas pela primeira vez a 9 de maio de 1999, as WCAG têm sofrido transformações consideráveis ao longo do tempo. O documento vai atualmente na sua versão 2.2 e está traduzido em vários idiomas, incluindo o português (só na versão 2.1). Estamos nesta fase no advento de uma revolução maior nestas directrizes, com o processo que está a decorrer para a versão 3.0, que trará grandes alterações em relação à versão atual. Contudo, a publicação final da versão 3.0 demorará ainda vários anos, por isso pode ser bastante precipitado, começar a olhar já para esta versão.
Na sua versão 2.2, as WCAG estão estruturadas em várias camadas de informação. A primeira camada é composta pelos princípios tão conhecidos: perceptível, operável, compreensível e robusto. Cada um destes princípios é subdividido em diretrizes. E, por sua vez, cada uma destas directrizes é subdividida em critérios de sucesso. É fundamental perceber este encadeamento: princípios, directrizes e critérios de sucesso. No final do dia, se alguém nos perguntar “então, mas o que temos mesmo que cumprir?”, a resposta será sempre: os critérios de sucesso.
Ter um documento que nos sirva de referencial, como as WCAG, é absolutamente fantástico. É muito importante não esquecer que este documento, como todos os padrões publicados pela W3C, é o resultado de um consenso muito alargado entre especialistas, universidades e empresas, o que é extraordinário. Claro que existem recomendações que poderiam ser incluídas. Claro que não é uma referência perfeita. Contudo, a verdade é que, mesmo com todas as suas possíveis lacunas, as WCAG são a principal referência técnica, inclusive para a própria legislação, em vários países.

As WCAG são quase impossíveis de perceber
Porque nem tudo é perfeito, as WCAG também têm um grande “se não”. As WCAG são um documento bastante técnico, elaborado por especialistas (muito especialistas) em acessibilidade. Acontece que a maior parte do mundo (talvez a grande maioria, diria eu) não é especialista em acessibilidade digital, o que torna muito difícil compreender todas as recomendações descritas nas WCAG. Isto não quer dizer que tenhamos qualquer desculpa para ignorar o tema da acessibilidade digital. Mas a verdade é que se não compreendermos aquilo que temos que fazer, torna-se muito mais complexo de implementar, seja o que for.
Não acreditas? Vamos a um teste. Tira um minuto e lê esta frase: “A informação, a estrutura e os relacionamentos transmitidos através da apresentação podem ser programaticamente determinados ou estão disponíveis em texto.” Isto é o critério de sucesso “1.3.1 Info e relacionamentos”, da directriz “1.3 Adaptável” do princípio “1. Perceptível”. Agora, tenta dizer, de forma prática e pragmática, a um developer o que ele tem que fazer exactamente no código para que isto aconteça. Conseguias só com esta descrição? Talvez sim. A maior parte das pessoas que trabalha em transformação digital não.
A frase que costuma vir logo a seguir de se perceber isto é “Ah, mas assim as próprias WCAG não são elas muito acessíveis”. Mais ou menos. As WCAG são um referencial técnico, certo. Mas não quer dizer que devam ser as recomendações a passar às equipas técnicas, especialmente às que agora estão a começar a imersão neste tópico da acessibilidade digital.

O papel dos especialistas de acessibilidade
As palavras têm o poder que têm (que, quanto a mim, é muito grande). A expressão “especialista” ganha, em toda esta história, uma importância muito maior. Na minha ótica, e especialmente quando falamos de acessibilidade digital, o papel dos especialistas é principalmente simplificar. Conseguir explicar, de forma clara e ilustrada, com exemplos, qual a aplicação prática das diretrizes. Por outras palavras, cabe aos especialistas em acessibilidade digital, com base no conhecimento e nas recomendações consolidadas nas WCAG, guiar as equipas no caminho que têm de seguir, de forma que entendam o que têm de fazer, até tornar os produtos e serviços em que trabalham realmente acessíveis.
Se alguém na equipa, seja ele designer, developer ou qualquer outro perfil, não perceber realmente o que tem que fazer, como será capaz de o aplicar? Como essa pessoa será capaz de explicar isso aos colegas para que eles próprios possam também ajudar nessa transformação? Não será. E o problema é precisamente esse.
Partilhar, vezes e vezes sem conta, sem contexto ou explicação das WCAG, não nos vai tornar mais conhecedores. Vai, na minha opinião, ter o efeito inverso. Quem mergulha nas WCAG pela primeira vez, facilmente tem a sensação de que “Isto é impossível ou muito complexo de aplicar”. Esta sensação tem um efeito absolutamente desmotivador nas equipas. É tudo aquilo que não queremos.

Sugestão de recursos
As dificuldades na interpretação das WCAG são um tópico frequentemente debatido na comunidade de acessibilidade digital. Felizmente, existem muitos e bons recursos, criados pela comunidade, que podem ser uma grande ajuda nesta compreensão e aplicação na prática do dia a dia.
É muito importante olhar para todas as referências com sentido crítico. Pois é importante adaptar aquilo que são as suas recomendações e abordagens à realidade de cada equipa. Aquilo que funciona numa equipa pode não funcionar na realidade de outra equipa. É fundamental nunca esquecer isto.
- WCAG in Plain Language
- Understanding WCAG 2.2 (W3C)
- WCAG 2.2 Map (Intopia)
- WCAG for beginners (Silktide)
- The WCAG Explained (Stark)

Começar simples
Em quase tudo no design, começar simples é sempre uma boa ideia. Na acessibilidade digital ainda mais. Em vez de partilhares as WCAG com as tuas equipas, começa por um punhado muito pequeno de recomendações. Explica o que se pretende e o impacto que a não aplicação daquela recomendação tem nos utilizadores. Explica como é possível fazer, da forma mais simples e prática que conseguires. E pensa o seguinte. Se o teu produto ou serviço digital estiver muito mau em termos de acessibilidade digital, com aplicação apenas daquela recomendação, está um pouco melhor. Pode parecer pouco, mas está realmente melhor. Pelo caminho, fizeste com que as pessoas que aplicaram aquelas melhorias percebessem (realmente) um pouco mais de acessibilidade. Isto é fantástico.
Depois de aplicada a primeira recomendação, aplica outra. Da mesma forma. Foca a atenção da equipa numa única recomendação. Explica de forma muito clara. Utiliza exemplos e deixa claro o impacto que isso tem nos utilizadores. Implementa as melhorias. Parabéns! O teu produto ou serviço está cada vez melhor em termos de acessibilidade digital, e a tua equipa é cada vez mais capacitada para o tema.
Pode parecer uma abordagem simplista e, na verdade, não o deixa de ser. Mas é uma abordagem prática aplicada à “vida real” das equipas. Ou como é que esperas que uma equipa que nunca teve a acessibilidade digital na sua lista de prioridades e tem este mundo e o outro de melhorias a fazer, vá começar? É impossível passar do 0 ao 100 por meio de artes mágicas. Por isso só temos uma solução: ir pé-ante-pé, com a ajuda das WCAG, como é lógico, mas simplificando a forma como as equipas compreendem os fundamentos da acessibilidade digital.
Fotografia © Fleur (Unsplash)
