Por que deve a minha empresa investir em acessibilidade digital?

Desde a sua criação na década de 90, a World Wide Web, a base de tudo aquilo a que chamamos hoje de “digital”, assume a acessibilidade digital como ponto fundamental e identitário. Nas palavras do seu criador, Tim Berners-Lee: “O poder da web está em sua universalidade. O acesso de todas as pessoas, independentemente da deficiência, é um aspecto essencial.”.

Contudo, a realidade é bem diferente. Quer seja no setor público, quer no privado, especialmente no privado, a esmagadora maioria dos produtos e serviços digitais não cumpre os requisitos mínimos de acessibilidade digital. E isto não é uma simples percepção. É um facto bastante palpável e quantificável.

Os números não enganam

Um estudo da WebAIM, que analisa anualmente um milhão de páginas iniciais de websites, refere, na edição de 2026, que o cenário é pior do que no ano anterior. Segundo este estudo, entre as 1 milhão de páginas iniciais analisadas, foram identificados 56.114.377 erros de acessibilidade distintos. Isto quer dizer que, em média, cada uma destas páginas tem 56,1 erros de acessibilidade. Ainda segundo o mesmo estudo, este valor representa um aumento de 10,1% face a 2025. Para além de significativo, este aumento não deixa de ser preocupante, visto que, nos últimos tempos, por causa da mudança legislativa que abrange todo o setor privado na Europa, a acessibilidade digital tem ganhado uma relevância como nunca teve.

Olhando para estes dados e atendendo ao facto de se tratar de um estudo global, pode haver alguma tentação de o desvalorizar. Alguns de nós poderão dizer simplesmente “Isso não reflete a realidade em Portugal”. E é verdade. Não reflete. A realidade em Portugal, em particular, é bem pior. Um outro estudo, o Digital Trust Index, na sua edição de 2025, refere que 95% das páginas iniciais de websites em Portugal não estão em conformidade com os requisitos mínimos de acessibilidade digital. Por outras palavras, a esmagadora maioria (quase todos) dos websites que utilizamos todos os dias não cumpre os requisitos básicos de acessibilidade. O que isto também quer dizer é que as empresas detentoras destes websites estão em grave risco de consequências legais decorrentes deste incumprimento.

O papel das empresas

O cenário não é bonito, é verdade. Estando, neste momento, o tema da acessibilidade digital ligado a requisitos legais, é fácil gerar, em seu redor, uma aura de complexidade e alarmismo que em nada ajudará a uma discussão séria e estruturada nas empresas. A boa notícia é que as empresas podem desempenhar um papel preponderante na transformação positiva deste cenário.

Para além da sua responsabilidade social, as empresas, ou melhor dizendo, as marcas, têm um papel valioso na economia e devem ser um referencial positivo em tudo o que diz respeito às práticas de inclusão. Especialmente se falarmos de grandes marcas, com milhares ou até mesmo milhões de clientes, digitais e não digitais, a sua postura face a este tema é alvo de escrutínio constante da sociedade e da opinião pública.

Um investimento, não um custo

A somar à responsabilidade, existem também os benefícios para o negócio. A acessibilidade digital não é apenas uma obrigação legal. Ela pode mesmo traduzir-se em mais-valias para os negócios das marcas e isto não é um detalhe. Uma empresa é, antes de tudo, um agente económico. Empresas fortes, rentáveis e sustentáveis contribuem para a criação de uma economia de valor acrescentado. Isto é bom para a economia e para as pessoas.

É natural que as empresas, ao olharem para um tema como a acessibilidade digital, procurem perceber quais vantagens económicas pode trazer aos seus negócios. No final do dia, o que todas as empresas vão se perguntar é “por que deve a minha empresa investir em acessibilidade digital?”. A resposta é bastante simples. Aqui ficam algumas pistas.

1. É a coisa certa a fazer

É muito importante nunca esquecer que a principal que nos deve motivar a trabalhar a acessibilidade digital é para garantir a inclusão de todas as pessoas. Todas, sem excepção, independentemente das suas características, contextos ou, neste caso, deficiência. Existem muitas e boas razões para termos produtos e serviços realmente acessíveis. A mais importante dessas razões é o impacto social que essa inclusão pode ter, ao garantir a autonomia de todas as pessoas no seu dia a dia. A acessibilidade digital faz sentido para todas as marcas que realmente querem fazer a diferença na vida das pessoas.

2. É uma obrigação legal

Esta é de caras. A partir de 2025, graças às alterações legislativas introduzidas pelo Decreto-Lei n.º 82/2022 e pela Portaria n.º 220/2023 que transpõem para a legislação nacional a Diretiva (UE) 2019/882, a acessibilidade para muitas empresas deixou de ser uma opção para passar a ser uma obrigação. Se estivermos a falar de uma empresa abrangida por este quadro legal, a partir de 28 de junho de 2025 já é obrigatório cumprir uma série de diretrizes técnicas. Se a tua empresa atualmente não as cumpre nos seus principais produtos e serviços digitais, já está em incumprimento. Trocando por “míudos”, isto quer dizer que não estás livre de que, de hoje para amanhã, alguém te bata à porta a dizer que vai apresentar uma queixa que pode, em último caso, dar origem a uma multa e a muito má publicidade.

3. Reforça o posicionamento da marca

Investir em acessibilidade digital também é investir no fortalecimento do posicionamento da marca. Claro que todas as marcas dizem que são centradas nas pessoas. Que pensam nas pessoas e que é por elas que existem. Mas e se forem só “algumas pessoas”? Se excluirmos da utilização dos nossos produtos e serviços digitais algumas pessoas, não cumprimento os mais elementares requisitos de acessibilidade digital, será que uma marca pode mesmo fazer, com legitimidade este discurso? Não, claro que não.

4. Traz retorno financeiro

O lado mais interessante da acessibilidade digital para as empresas é que este investimento não tem apenas um aspecto social e de posicionamento; também apresenta um retorno de investimento muito claro. Investir na melhoria da acessibilidade digital dos nossos produtos e serviços, garante por exemplo, um melhor SEO das nossas plataformas online. Melhor SEO significa mais visitas. Mais visitas, se formos uma loja online, quer dizer, seguramente, mais vendas. Mais vendas… já deu para perceber onde queremos chegar. Mais um exemplo. Com a uniformização em todos os Estados-Membros da legislação de acessibilidade digital, quer dizer também que, por esta ótica legal, estamos preparados para competir e vender os nossos produtos e serviços em qualquer país da União Europeia, podendo aumentar a nossa abrangência comercial.

5. Não é assim tão difícil

O mais importante da conversa sobre as mais-valias da acessibilidade digital para as empresas é que ela não é tão difícil de implementar. Se conseguirmos fazer com que a acessibilidade se torne um padrão e não uma excepção no dia a dia das equipas, podemos fazer com que tudo isto aconteça de uma forma bastante natural. Claro e aqui é muito importante ser transparente, que nada disto acontece do dia para a noite. Será necessário um período de adaptação e transformação. Mas com a orientação certa, tornar a acessibilidade digital um valor incontornável e um grande argumento de negócio é mais simples do que a maior parte das empresas pensa.

Dois caminhos em paralelo

Olhando para os ecossistemas digitais de qualquer grande marca em Portugal e reconhecendo a necessidade de transformar a acessibilidade digital em toda a rede de pontos de contacto com os clientes, nem sempre é fácil saber por onde começar. É importante perceber que esta resposta pode variar de marca para marca. Pelo seu negócio, pelos seus objetivos de curto, médio e longo prazo, pelos seus modelos de governação digital, entre muitos outros factores intimamente relacionados com a sua própria identidade.

Apesar desta necessidade de contextualização para a criação de um plano de transformação acessível, é igualmente verdade, que seja qual for o plano e as prioridades, existiram sempre dois caminhos que devem ser percorridos em paralelo.

A. Corrigir é um péssimo negócio

Um dos caminhos óbvios é corrigir os erros de acessibilidade em cada um dos produtos e serviços digitais. Sejamos claros, em algum momento, vamos ter que fazer este trabalho. Nunca antes de realizar uma auditoria de acessibilidade digital completa em todo o ecossistema, mas, mais tarde ou mais cedo, vamos mesmo ter que fazê-lo. Por outras palavras, vamos ter que dar algumas “marteladas” em alguns dos nossos produtos e serviços digitais em operação.

Dar “marteladas” de acessibilidade digital em soluções já existentes é o pior investimento que podemos fazer. Custa muito dinheiro. Obriga, muitas vezes, a mexer em tecnologias muito antigas. E, no final, é difícil que a solução não fique com o ar de ter sido “remendada”, principalmente em termos de experiência e de interface. Este é um investimento terrível que devemos evitar com todas as nossas forças. Isto porque existe um truque. E é aqui que entra o segundo caminho.

B. Fazer bem desde o início

Em paralelo ao trabalho de corrigir produtos e serviços digitais em funcionamento, aquele caminho em que as empresas devem colocar mais energia é o de fazer bem desde o início tudo aquilo que estão a fazer agora. Neste preciso e exacto momento. Ou seja, todas as novas funcionalidades, aplicações, plataformas, websites, materiais de comunicação e ficheiros de escritório que as equipas de negócio e transformação digital estão a produzir no dia de “hoje” deveriam ser forçosamente “acessíveis by default” e cumprir todas as directrizes de acessibilidade digital aplicáveis.

Que sentido faz estarmos hoje a produzir soluções digitais (sejam elas quais forem) que sabemos que têm de cumprir as directrizes de acessibilidade digital e não as cumprem? Isto não faz nenhum sentido. Não cumprir as directrizes nestes casos significa que vamos acrescentar mais volume àquele grupo de soluções que teremos de corrigir, forçosamente, mais tarde. Lembram-se de qual era o pior investimento em acessibilidade digital que podíamos fazer? Exacto, corrigir soluções já existentes.

AccessibilityOps

A acessibilidade digital veio para ficar no dia a dia das empresas. Sendo um tema com enquadramento legal bastante robusto, é difícil dizer que esta “onda” um dia vai passar. E ainda bem. No fim da linha, o que isto quer dizer é que, daqui a alguns anos, teremos muito mais produtos e serviços digitais acessíveis ao maior número de pessoas, independentemente das suas características. Ainda assim, isto acrescenta complexidade ao tema, no sentido de que estas têm de ser práticas padronizadas em toda a empresa e ao longo de todo o ciclo de trabalho.

É aqui que entra a AccessibilityOps. Claro que tinha que existir um “ops” para a acessibilidade. Nas equipas de transformação digital temos ProductOps, DevOps, DesignOps, ResearchOps, MarketingOps, etc. E o que todas estas disciplinas têm em comum é que tentam padronizar uma abordagem estruturada para a operação de cada uma das áreas. No caso da acessibilidade, não é diferente. O trabalho que muitas empresas terão de fazer no futuro é perceber como se consegue “entranhar” a acessibilidade digital em todos os seus processos do dia a dia, sem que se torne uma empreitada impossível de executar na realidade acelerada das equipas de transformação digital.

Por exemplo, a inclusão de anotações de acessibilidade no desenho de protótipos. A criação de user stories com critérios de aceitação específicos de acessibilidade. A verificação automática no desenvolvimento de todas as releases de código. A inclusão de critérios de acessibilidade nos cadernos de controlo de qualidade. O teste regular de soluções com pessoas com deficiência. Tudo isto são exemplos simples e bastante fáceis de acionar no quotidiano das equipas, que podem ajudar a trazer o trabalho de acessibilidade para a prática (e ritmo) da “vida real”.

A acessibilidade digital é uma responsabilidade de todos os profissionais nas equipas de projeto e deve estar presente em todas as etapas. Esta é uma premissa intocável. É ela que nos vai permitir trabalhar mais na antecipação dos problemas e menos na sua correcção. Ainda te lembras de qual é o pior investimento que podemos fazer em acessibilidade digital? Sim, esse mesmo!

E é precisamente aqui que a formação transversal em acessibilidade digital ganha importância preponderante.

O papel da formação

A formação transversal e adaptada à missão particular de cada profissional nas equipas é um dos caminhos mais rápidos para “enraizar” a acessibilidade digital no ADN das empresas. Garantir que todas as pessoas tenham as ferramentas certas para compreender o tema de forma abrangente (sem preconceitos ou ideias pré-concebidas). E conseguem aplicar, na prática das suas funções, as boas práticas e diretrizes de acessibilidade; é uma das formas mais certeiras de trilhar este caminho de forma estruturada.

Fotografia © Erik Mclean (Unsplash)